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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Pontos de Vista

O ponto de vista do canário da terra, Praia de Baunilha, verão de 2014


PONTOS DE VISTA
(C. A. Albani da Silva, o Inventor do Vento)
* Com a participação especial da cantora Fernanda Estevão nos vocais

Disse o Zezinho: “Pra que saber o sujeito da oração, quando eu sei que é a minha mãe quem reza por mim enquanto vendo bala na estação?!”

Disse a Mariazinha: “Pra que saber se o Teorema é de Pitágoras se, na minha mesa, como as migalhas de um velho pão com água?!”

Disse o triste Luís: “Por qual motivo estudar todas essas guerras, se, aqui no morro, cada guri é um soldado da favela?!”

Refrão: Eu aprendo tantas coisas vivendo
             Que a escola já não pode me ensinar
             Os franceses que fiquem com as suas Revoluções
             Pois eu tenho a minha “mina” e ela tá louca pra deitar...

Disse o Cambotinha: “Não me diz nada esse tal Hino Nacional! Prefiro algo na minha língua: Rap, Funk, Rock, Pagode, Samba ou outra batida legal!”

Disse a Professora: “Ganho tão pouco, como posso melhorar? A culpa é dos próprios ‘maloqueiros’ que nem tentam ao menos me escutar!”

Disse o Gerente do Banco: “Este mês me assaltaram outra vez! Quando vão dar um fim a essa cambada de ‘pés-rapados’ de uma vez?” 

Refrão

Disse o Secretário da Cultura: “O problema é com a Educação! Dirija-se ao próximo Gabinete, mas antes retire a sua ficha no balcão”.

“Depois das férias, temos um pleito, é só a Câmara aprovar, passar pelo Governo do Estado e aos Deputados a reforma retornar”.

“Mas aí temos outro recesso, e como já vem o fim do ano outra vez, deixamos pra depois do Carnaval pra sancionar essas ilegíveis Leis”...

Só não esqueça (Passe por cima dos outros)
Só não esqueça (Deixe os velhinhos banguelas)
Mas não esqueça (Faça filhos por aí)
Só não esqueça (Leia poemas de amor)
Mas não esqueça (Dê toda sua grana para o pastor)
Mas não esqueça (Torça pela Dupla Grenal)
Só não esqueça (Especialmente no ano eleitoral)
Só não esqueça a minha legenda

Ficha Técnica:
C. A. Albani da Silva, o Inventor do Vento: Letra, música, voz, violão e harmônica
Mick Oliveira, o Profeta do Vento: Guitarras
Fernanda Estevão: Participação Especial - Vocais
Daniel "San": Baixo, bateria, teclados, percussão
Luan Henrique: Técnico de áudio
Cleiton Amorim: Produção
Nona faixa do álbum "Cavalgando o Vento" (CoV), lançado em dezembro de 2013 com apoio do Fundo da Cultura de Cachoeirinha/RS (FUCCA).
Gravado no Estúdio LACOS, Cachoeirinha/RS, entre julho de 2012 e agosto de 2013.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Nenhuma saudade nos 50 anos do Golpe Militar

Vladimir Herzog, Assassinado pelo Regime Militar, 1975


História e Memória na Escola: 50 anos do golpe civil-militar no Brasil e o regime ditatorial (1964-1985)
Prof. Rafael Policeno de Souza
“Para que não se esqueça. Para que nunca mais aconteça”. Dom Evaristo Arns

Este ano completa-se 50 anos do golpe civil-militar no Brasil. Do dia 31 de março ao dia 1º de abril de 1964 (não há consenso na historiografia quanto à data específica; importa é que desde o dia 31 de março já se objetivavam as ações golpistas, que se consolidariam no dia 1º de abril), efetivou-se a agressão ao regime democrático constitucional vigente no país e instalou-se, por 21 anos, uma ditadura militar que, desde seu primeiro dia, até o último, foi caracterizada pelo Terror de Estado, com a mais variada lista de violações de direitos, que passavam pelo afastamento de profissionais de seus postos de trabalho (inclusive professores), cassação de direitos políticos, prisões clandestinas, sequestros e desaparecimentos, execuções, bem como toda sorte de violência física, como a tortura (com ampla lista de procedimentos). Este regime levou à morte e causou tragédias coletivas e dramas psicológicos em um grande número de brasileiros. Sob a Doutrina de Segurança Nacional, com a Guerra Fria[1] como “pano de fundo”, e o aparato ideológico da direita conservadora, o Brasil foi um dos primeiros Estados nacionais a violentar a democracia e implantar uma Ditadura de Segurança Nacional[2]. Além disso, pesa contra a nossa história o protagonismo na implantação do “terror para além das nossas fronteiras”, uma vez ter sido o Brasil um dos principais países que organizou e colocou em prática a Operação Condor, responsável por uma rede de repressão nos países da América do Sul.
Nossa ainda jovem democracia enfrenta inúmeros problemas e limites, que possuem estreita ligação com o período ditatorial recente. É papel da escola contribuir para a compreensão da nossa sociedade, bem como promover espaços de construção de conhecimento que permitam que sejam maximizadas as principais questões, que envolvem a construção de uma nação soberana, que possua cidadãos aptos a interpretar a sua própria história. Para isso, é necessário aproveitar momentos únicos como os 50 anos do golpe e início da ditadura brasileira, e combatermos a nossa trágica “escolha” pela amnésia coletiva, que parece manter boa parte do povo brasileiro“anestesiada” pela não reflexão crítica de seu passado recente. Não questionar e não pensar como e de que forma o Estado brasileiro colocou seu povo sob a tirania e terror por intermináveis 21 anos, nos leva a um perigoso cenário de “naturalização” das violências contra uma democracia ainda em fase inicial de desenvolvimento. Infelizmente o Brasil também foi o último a se redemocratizar, além de até hoje não ter feito avanços significativos na direção da abertura de arquivos, reconstrução da memória coletiva e julgamento dos responsáveis pelo terror de Estado (países como Uruguai, Argentina e Chile já fazem isso inclusive com ex-presidentes e generais julgados e presos). Muitos desses limites estão relacionados à não massificação da discussão ampla e crítica nas salas de aula do Brasil como um todo.
Assim como a memória individual, a memória coletiva da sociedade é seletiva, ou seja, de acordo com a correlação de forças[3] existente escolhe de que forma e em que intensidade “lembrar” de determinado tema. Este item é demasiado complexo para se trabalhar aqui, apenas o inseri a título de ilustração objetiva, em relação ao poder hegemônico exercido pelos grandes conglomerados midiáticos atualmente. A grande e esmagadora maioria foi cúmplice[4] e sustentou ideologicamente o golpe e o regime militar. Hoje fazem editoriais defendendo a democracia, mas são “filhos” de um regime ditatorial. Não é por acaso que não vemos uma grande divulgação dos 50 anos, e quando vemos é a partir da ótica que interessa a sua própria perspectiva, pois sabem estar com as “mãos sujas de sangue”. Colocar o processo histórico que engendrou a Ditadura Militar brasileira em perspectiva, é nosso dever mais urgente, para defesa e consolidação dos valores humanistas que a escola tem o dever de fomentar.

Notas de rodapé
[1] O mundo bipolar, dividido em orientações distintas das potências hegemônicas EUA x URSS. Os militares e a direita civil utilizaram o discurso de que o então presidente João Goulart iria instaurar uma república sindicalista no Brasil e um posterior comunismo. Assim, argumentam que em defesa da soberania nacional e contra a intervenção estrangeira deram o Golpe. Em realidade, documentos liberados recentemente pelo departamento de Estado dos EUA revelam que na verdade os militares é que atuavam contra a soberania nacional e a serviço dos interesses dos EUA na região, contando inclusive com aparato militar caso necessário. Ver “Operação Brother Sam”.
[2] Na verdade, o ciclo de ditaduras na América Latina, da segunda metade do século 20, foi iniciado no Paraguai com a sanguinária direção do general Stroessner, que vergonhosamente se exilou no Brasil e morreu tranquilamente sem o julgamento de suas atrocidades.
[3] Monopolização dos grandes meios de comunicação, concentração de renda e educação deficitária são alguns dos elementos.
[4] A própria rede Globo nasceu da “placenta” da ditadura e se sustentou a partir de sua defesa.


ALGUNS MOTIVOS PARA NÃO SENTIRMOS SAUDADES DA DITADURA MILITAR (1964-1985)

C. A. Albani da Silva, o Inventor do Vento
(Crônica publicada originalmente em 05/04/2012, 2ª edição em 04/04/2013, 3ª revisão 01/04/2014)


Há 50 anos, na madrugada de 31/03 para 1° de abril de 1964, o Exército derrubou o Presidente João Goulart (1919-1976) e passou a ditar as regras no Brasil. Apoiado por empresários nacionais e estrangeiros, pela Igreja, por setores da classe média, fazendeiros e pelo governo dos EUA, o Golpe Militar foi uma reação das elites contra as então crescentes reivindicações sociais de sindicatos, agricultores, partidos de Esquerda, estudantes, intelectuais e artistas. Essas lutas populares eram em prol das REFORMAS de BASE (reforma agrária, reforma urbana, reforma educacional e política). O pessoal da Direita, que deu o Golpe Militar, temia que ocorresse no país uma Revolução Comunista, como na Cuba de Fidel Castro e “Che” Guevara em 1959. Sendo assim:

1) É verdade que havia mais segurança nas ruas durante a Ditadura? Não! Durante a Ditadura, a repressão policial se concentrou contra grupos políticos de Esquerda (guerrilheiros, estudantes, líderes sindicais, intelectuais, artistas críticos). Se as ruas eram mais pacatas é porque os centros urbanos brasileiros eram bem menores e muita gente (cerca de 60% da população) vivia no campo. Em 1970, por exemplo, Gravataí tinha menos de 70 mil habitantes. Em 2000, tinha 270 mil habitantes!

2) As favelas e o êxodo rural têm a ver com a Ditadura então? Tudo a ver! Entre 1967 e 1979 os militares incentivaram a vinda de muitas empresas estrangeiras para o Brasil, sobretudo empresas norteamericanas. O país se industrializou de vez. Porém, o campo continuou dominado pelo latifúndio, ou seja, muita terra na mão de poucos fazendeiros e pouca terra na mão de muitos agricultores. Resultado disto? Milhões de camponeses sem-terra abandonaram o campo, ocupando as periferias das cidades atrás de emprego nas fábricas. Alguns conseguiram... Outros, não!

3) Não existiam drogas durante a Ditadura? Foi exatamente durante a Ditadura que o campo, no Brasil, se industrializou também, a partir de 1972. Máquinas agrícolas substituíram a mão-de-obra de milhões de agricultores e isso ocasionou ainda mais êxodo rural. Nesse embalo, fazendeiros, empresas multinacionais de agrotóxicos e equipamentos agrícolas investiram pesado na produção de alimentos, mas também, de entorpecentes (tudo em nome do lucro, claro!) em um processo simultâneo em quase toda a América Latina. Rapidamente, as drogas inundaram as cidades...

4) Não havia corrupção na Ditadura? Enormes obras de infraestrutura (estradas, pontes, hidrelétricas, aeroportos) aconteceram no Regime Militar, quase todas superfaturadas e com muitos desvios. Veja o caso da Rodovia Transamazônica, caríssima e até hoje inacabada. Ou mesmo a enorme dívida externa, contraída pelo Governo Militar para industrializar o país. Poucas denúncias apareciam na TV, pois o próprio governo censurava a imprensa, e porque também grande parte da imprensa apoiava o Regime Militar (a Rede Globo, a Folha de SP, o SBT...)

5) Mas a Globo não foi censurada também? Algumas novelas da Globo foram censuradas, mas quase todas por cenas de sexo, beijos e nádegas, não por ideias políticas como foram censurados dezenas de compositores, escritores e professores. Mesmo assim, foi a Ditadura que patrocinou dezenas de filmes estilo PORNOCHANCHADA, via Embrafilme, aqueles filmes brasileiros de comédia-erótica que fizeram muito sucesso no país nos anos 1970.

6) A Ditadura no Brasil foi menos violenta que as Ditaduras no Uruguai, Paraguai, Argentina, Bolívia, Chile? Não! Ainda hoje centenas de pessoas estão desaparecidas por terem sido torturadas e mortas por órgãos militares e policiais: outras milhares morreram assassinadas. Atualmente, a resistência ainda é grande entre os militares e políticos de Direita que, por vezes, contestam a Comissão Nacional da Verdade, instituída pelo governo Dilma Roussef em Maio de 2012 e que busca apurar os crimes de torturadores e terroristas do Regime Militar, resgatando e preservando também documentos históricos do Regime. Muitos desses torturadores seguem hoje recebendo salários, homenagens e mantêm títulos militares. Mesmo a Lei da Anistia Geral, de 1979, promoveu a impunidade dos torturadores e não prescreveu, como deveria, em 2009.

7) Alguém votava na Ditadura? Na maior parte da Ditadura, não! Os militares liberaram o voto em certos momentos, mas apenas para os alfabetizados (milhões de brasileiros eram analfabetos então) e para algumas prefeituras e Estados. Nada de voto para presidente! A lógica era: o povo brasileiro é incompetente, incapaz de votar por ser ignorante. Ou seja, novela (ou pornochanchada), futebol e cerveja pro povo, pois assim o povo deixava que os Generais, os “técnicos” do Exército e das empresas governassem o país.

RESUMINDO: Grande parte dos problemas do Brasil de hoje tem sua origem nos 21 anos de Ditadura Militar!!!!