sexta-feira, 26 de abril de 2019

KAMKWAMBA e a LUZ ELÉTRICA de VENTO



KAMKWAMBA e a LUZ ELÉTRICA de VENTO
O jovem engenheiro eletricista William Kamkwamba nasceu no Malawi em 1987. E aos 21 anos publicou autobiografia pela editora HarperCollins, a quatro mãos com o repórter, rodado em África, Bryan Mealer. No meio de uma seca desgraçada, com a fome matando sua aldeia, pois não sobrou uma espiga de milho em pé, o menino Kamkwamba encontrou alimento ao domar o vento africano para fazer a luz, que não havia, na sua casa sertaneja. Como ele disse, a humanidade vive em luta contra a escuridão e a fome…
Kamkwamba virou palestrante global do projeto TED (Tecnologia, Entretenimento e Desenho) da Fundação Sapling, na ativa desde 1984 nos EUA e no mundo, com seu moinho de vento artesanal, mas antes disso foi recebido com ceticismo pelos pais e pelo povoado Wimbe onde cresceu. Curiosamente, e Kamkwamba aborda gentilmente isso por todo o seu livro, o mesmo povo que era cético com o moinho de um garoto, era também bastante crente com as suas lendas antigas e com o poder mágico do vodu de seus feiticeiros, assim como, bastante crente com as igrejas cristãs plantadas no Malawi por colonizadores portugueses em 1600 e por missionários ingleses em 1889.
Se você especular o mapa do Malawi verás que o país fica na trifuca da África que vai do centro ao leste do continente mãe de todos os outros continentes. As terras baixas dos banhados, onde prevalecem meia dúzia de povos diferentes, penetram por entre o Moçambique; já as terras altas é onde fica o enorme lago Malawi e onde nasce o rio Shire, ladeado pelas montanhas Dowa. Na parte Norte é de onde veio nosso herói, e onde os Chewa são o povo principal, que já tiveram incontáveis tretas com os vizinhos do povo Yao, povo africano adepto do islamismo. O Cristo tirou o Papa(i) de Kamkwamba das bebedeiras e das brigas de bar.
Só para constar, colônia inglesa até 1964, o Malawi e seus quase 20 milhões de malauianos foram governados pelo presidente perpétuo Hastings Banda que governou entre 1966 e 1994. Um homem bruto, um minerador também formado médico, que dava uns safanões na oposição, porém subsidiava bastante a agricultura local. E o Malawi, incluindo a capital, Lilongwe, é país agrícola: das espigas de milho e dos rolos de fumo do tabaco. Os pais de Kamkwamba até se meteram a vendedores nas feiras do lago que dá nome ao país, na juventude, ou na crise de fome, durante a seca de 2001, mas eles são lavradores desde sempre. Kamkwamba, único menino entre muitas irmãs, pegou do cabo da enxada e isso ele relata muito bem trazendo os calos do trabalho milenar no campo. Durante o inverno, arar a terra, limpar o solo. Entre dezembro e janeiro, com as chuvas de verão, vem o plantio. Em maio, a colheita. O que não aconteceu com a seca catastrófica de 2001. Enquanto isso, o presidente da época, Bakili Muluzi, pareceu não levar tão a sério o drama da falta das chuvas e o seu governo, por omissão, favoreceu a desgraceira da fome. E da cólera que veio com a fome e as águas infectadas.
Se vocês me perguntarem qual música se escuta no Malawi eu diria o reggae, na voz de Robert Fumulani, e o pop, na voz de Billy Kaunda (que também é político)! Assim como, eles comem um churrasco, chamado kanyenya, embora a carne seja um luxo de Natal; tanto que, para aplacar a fome de carne, Kamkwamba caçava com seu cão os passarinhos na mata de eucaliptos; o feijão e arroz do Malawi é um tipo de polenta, a nsima; tocam tambores chiwoda; jogam bawo nos tabuleiros do mercado e ouvem bastante rádio, sendo as duas maiores estações de rádio, propriedade do governo. A comunidade de Kamkwamba não tem um prefeito, mas um chefe, um sábio conselheiro e líder que, aliás, quando foi pedir ajuda, num comício do presidente eleito, após três décadas do reinado de Banda, o chefe da aldeia saiu surrado pela milícia do magnata...
Mas como é que o Kamkwamba virou engenheiro, tão novinho? Ora, homem prático, aprendeu os princípios da eletrônica e da elétrica desmontando rádios velhos. E perguntando a motoristas e caminhoneiros como funciona um motor ou até um aparelho leitor de CD´s! Porém, o seu pulo do gato, sua eureka científica, foi conhecer o dínamo da bicicleta para acender faróis. Numa crise, nos ensina Kamkwamba, precisamos de um milagre ou de uma boa ideia. A crise estava dada com a seca e a fome; a fuga de uma irmã para se casar com o professor e diminuir o número de bocas da família faminta; a boa ideia também estava dada: era a luz elétrica. Aliás, um aparte pessoal nesta croniquinha: minha Mamica sempre contava de quando saiu da roça em Caraá e Santo Antônio da Patrulha da emoção vendo a cidade de Porto Alegre acesa à noite pela luz elétrica. Seus olhos verdes nunca esqueceram da beleza da noite elétrica de uma cidade que se industrializava em 1966. Fim do aparte.
Os capítulos da seca e da fome nos entortam a consciência e lembram de livros brasileiros como O Quinze de Rachel de Queiroz (escrito quando ela tinha 20 aninhos também) ou Vidas Secas de Graciliano Ramos. Desgraçadas e tristes são as cenas em que Kamkwamba sacrifica seu cusquinho desnutrido assim como quando Fabiano mira a espingarda e acaba com os sofrimentos da cadela Baleia nas Alagoas de 1938…
Para chegar na escola secundária mais próxima, o herói Kamkwamba tem de caminhar 40 minutos. Mesmo assim, ele fica pouco tempo nesse colégio, pois seu pai não tem grana para pagar as mensalidades. Além do que, era exigido exame admissional para cursar o ensino médio. Bem, entre o cabo da enxada e os sonhos da luz elétrica, Kamkwamba descobriu a biblioteca da escola primária, explicando melhor, uma biblioteca social ou comunitária, mas que ficava no prédio do coleginho. Ali estudou os raios solares de Arquimedes refletidos para queimar os barcos romanos em Siracusa, na Grécia Antiga, e principalmente, estudou os ímãs, o eletromagnetismo, os fios, as bobinas, os circuitos, transformadores, disjuntores, correntes alternadas, correntes contínuas, bombas hidráulicas. No ferro velho, ao lado da escola secundária, encontrou a matéria-prima para seu artesanato feito de ventos, faíscas, choques, tudo em busca da claridade. Os mecenas para arranjar os parafusos, arruelas, anilhas e porcas foram os dois melhores amigos: Gilbert, filho do chefe da aldeia; Geoffrey, um primo, filho do tio John, que faleceu e apresentou os silêncios da morte a Kamkwamba antes mesmo da vinda da seca.
Sim, o guri conseguiu fazer a luz alumiar o seu quarto, para ler depois das 19h e poupar o dinheiro gasto pelos pais na querosene das lamparinas. Depois ele montou um esboço de moinho no pátio da escola e virou notícia na imprensa do país. Alguns homens sem viseiras que atuavam no serviço público do Malawi identificaram seu talento e o levaram para o TED na Tanzânia e, depois de suas entrevistas e palestras por lá, ele espalhou lâmpadas através da energia eólica pelo seu bairro. Até implantou um poço com bombas elétricas para irrigar a roça do pai duas vezes por ano. Foi viajar pelos EUA (Nova York, Los Angeles e Las Vegas). Se perdeu na biblioteca da imaginação humana de Jay Walker que, entre livros raros, e milhares de obras consagradas, guarda como lustre o satélite Sputnik dos russos e um computador Enigma de Alan Turing, que ajudou a derrotar os nazistas em 1945.
O livro se encerra com Kamkwamba numa fazenda de ventos no sul da Califórnia. Vou convidá-lo para ir visitar os cataventos de Osório, Palmares, Cidreira e Tramandaí. Torço para que ele encontre algum tempo na sua agenda. Nossos ventos assobiam tristezas parecidas com as do Malawi.
(c. a. albani da silva, o inventor do vento)


terça-feira, 23 de abril de 2019

Ogum virou Jorge que ainda é Ogum


Carybé, Ogum, s/d

RODOPIOS da CULTURA: Ogum virou Jorge que ainda é Ogum

        Veja como a cultura rodopia pelos séculos, disse o cantador Tremenda Luz ao seu jegue de estimação, o Nick Nivaldo. Na Capadócia, Turquia do século III, havia um cavaleiro chamado Jorge. Ele matou o dragão que devorava as ovelhas, donzelas e camponeses na região. Mas o rei de Roma, que dominava a Palestina de cabo a rabo, e se chamava Diocleciano, cortou a cabeça de Jorge da Capadócia por seguir o Cristo quando esta religião era proibida no Império Romano. Mais tarde, os romanos também adorariam a Cruz.
     Mil anos depois de Jorge perder a cabeça (em 287), já no afã das Cruzadas medievais, quando reis e cavaleiros dos feudos e dos castelos europeus queriam tomar, na porrada, Jerusalém dos árabes muçulmanos, os fanáticos do lado ocidental do mundo invocaram Jorge para suas guerras e contra os seus novos dragões. A melhor crônica do herói, nessa época, foi escrita pelo italiano Jacopo de Varazze no livro Legenda Áurea: Vidas de Santos. Assim, em 1387, sob influência dos ingleses e dessas leituras, Dom João I de Portugal escolheu o santo como o grande herói dos guerreiros portugueses.
      Do outro lado do oceano Atlântico, desde a Antiguidade do rio Níger, na negra África dos reinos Daomé e Oyó, Ogum apareceu, espírito de algum antepassado, negro herói fundador de povoados, como a divindade iorubá do ferro, das enxadas para a lavoura, das espadas para as brigas de guerreiros sempre tão cheios de virilidade quanto vazios de compreensão. Desde 1440, as Cruzadas dos portugueses e de outros reinos europeus eram justamente contra os africanos. Já em terras brasileiras, no ano de 1549, o padre Manuel da Nóbrega assistiu à primeira procissão ao corpo de Cristo e a São Jorge na colônia portuguesa da América do Sul.
        Para redimir os pecados dos deuses pagãos, venerados na terreira africana, foram impostos castigos como quatrocentos anos de escravidão, na maior, sagradamente falando, tremenda, cara de pau, por reis, padres e outros colonizadores: literalmente ferrados, os africanos do povo jeje e nagô foram para a América como escravos, amontoados em navios negreiros. Eles chegaram na Bahia e no Rio de Janeiro para trabalhar até a morte e até a conquista dos céus, nas usinas de açúcar do Pernambuco, nas charqueadas do Rio Grande, nas minas de ouro das Geraes, nos cafezais cariocas e paulistas.
      Tremenda Luz, tirando a viola de 10 cordas da capa surrada que lhe acompanha pelas eras, nas suas viagens no tempo, concluiu: em Gana, uma das maiores fortalezas escravocratas da África colonial era dedicada a Jorge. Foi a Fortaleza de São Jorge da Mina, erguida em 1482!
       Nick Nivaldo, muito triste com isso tudo, ou seja, com a intolerância religiosa, com o racismo e os preconceitos, mas encantado com as volteadas que a cultura dá, inclusive no assunto religioso, pelos séculos, afirmou então que isto tudo não foi o suficiente para calar os tambores dos orixás e dos voduns que se disfarçaram nos santos dos católicos do Brasil, quando colônia portuguesa. São Jorge virou o disfarce perfeito para Ogum Rompe-Mato Xoroquê. E acrescentou, cantando agora a canção Lua Bonita (1953), do Zé do Norte, ainda por cima, São Jorge e o Dragão foram parar na Lua, aqui na imaginação dos brasileiros, sendo, como quase todo o guerreiro, um mau marido. Assim como, rebateu Tremenda Luz, na música da sambista Clara Nunes, A deusa dos orixás (1971), Ogum perdeu Yansã para Xangô. O deus da guerra tomou uma ruim no triângulo amoroso para outro deus, digamos, assim, mais culto e mais sedutor de deusas.
       Pouco afeitos a arroubos religiosos de qualquer tipo, Tremenda Luz e Nick Nivaldo partiram para a taberna mais próxima, tomar um vinho para espantar o frio que se achegava e anotar outras histórias para poderem passar os dias ruminando, digo, contando e cantando.
(c. a. albani da silva, o inventor do vento)

sexta-feira, 19 de abril de 2019

O ELIXIR DO PAJÉ


O ELIXIR DO PAJÉ
Nesse dia dos povos indígenas
O amigo Bernardo Guimarães
Me lembrou que
Em 1875
Esteve numa comunidade indígena
De Goiás
Ele ia atrás dos remédios da mata
Voltou curado, faceiro
De cabeça erguida!

Alegre com a alegria do meu amigo
Eu lhe disse:
Há muito tempo
O povo da floresta
Sabe muito mais
Muito mais do que a gente!


quinta-feira, 18 de abril de 2019

UMA PÁSCOA MULTICULTURAL


UMA PÁSCOA MULTICULTURAL

       O Prof. Linduarte Cantor deu um almoço de Páscoa na sua casa. Ele me chamou para ajudar, acabei fritando a peixada, assando pão da Síria e trazendo um barril de vinho. A primeira convidada a chegar foi Ostara. E, rapaz, ela não é mole, não! Um mulherão. Não consegui entender de que país ela vinha, se era Dinamarca, Noruega, Suécia ou Alemanha, mas entendi que a moça é vegetariana. Não come bicho morto de jeito nenhum. Se apresentou como a deusa das primaveras e do equinócio, quando a luz do dia empata com as trevas da noite. Ela também ficou um pouco confusa, pois não sabia que em Gravataí, por estarmos no hemisfério sul do planeta Terra, nosso equinócio pascal era o de outono, não o de primavera como lá no Norte gelado, no meio das florestas germânicas e da península escandinava de onde ela veio. Pra bem-dizer a verdade, vi a moça comentando ao prof. Linduarte Cantor que ela acreditava que a terra era plana e que ela ia averiguar com os outros deuses de Asgard, e com os velhos marinheiros vikings, medievais, se conferia mesmo esse papo dos gravataienses modernos, como o Prof. Linduarte Cantor, e eu, de afirmarem que o mundo é como uma bola de futebol, redondo, ou melhor, pensei eu, que é redondo que nem os peitos da própria Ostara. Ela me deixou um bilhete dentro do ovinho de galinha que trouxe todo pintado com muitas cores alegres de lá da Europa. Antes de eu lhe alcançar a sobremesa, abri, sem quebrar, o meu presente e li o que estava anotado “a vida é um eterno recomeço. Na primavera as plantas renascem depois de um longo inverno. Trago a fertilidade para os homens do campo e para a mulher barriguda. Comigo por perto os passarinhos voltam a cantar. P. S.: Gostei de você. Te vejo em setembro”. Imediatamente já me senti revivido e pronto para lavar a louça do banquete do meu amado Professor.
      O segundo convidado que chegou foi o Moisés. Estupidamente eu não sabia que ele era gago. “Claro, né! Todo judeu sabe disso”, falou o Linduarte. E me explicou que ele, o Profeta Moisés, é gago desde menino, pois queimara a sua língua numa prova de fogo inventada por um conselheiro malvado que trabalhava pro faraó. O conselheiro desconfiou, não sem razão, que a filha do faraó tinha adotado o piá Moisés justamente dentre os escravos hebreus, que andavam querendo uma rebelião contra o rei egípcio e em nome da liberdade, afinal, os hebreus estavam escravizados na África há muito tempo. O preconceito, comentei, é coisa de antigos mesmo…
     Moisés chegou falando de como há milênios andava chateado, porque Jesus havia simplificado os seus 10 mandamentos do Antigo Testamento da Bíblia resumido-os em apenas 2 mandamentos, num famoso sermão narrado por São Mateus no Novo Testamento bíblico. Foram 40 anos perdidos no deserto, insistia o Moisés, numa treta sem fim entre as 12 tribos de Israel; mais as tropas do Egito no encalço dos hebreus; raios e trovões ameaçadores no topo do Monte Sinai, pois Jeová não poderia escrever uma lista de regras tão importante sem um estardalhaço cósmico; tudo isso para um dia pintar um jovem carpinteiro pacifista, chamado Jesus de Nazaré, encurtando o roteiro da salvação nas suas palestras. Reparei que Moisés trancou bem em salvação: sá sassá, sá sassassá ção sassá salvação acudiu o Prof. Linduarte. Fiquei um pouco besta com esse papo de advogado do Profeta Moisés, tratando de leis. Estranhei elas serem tão importantes na Antiguidade, onde quase ninguém sabia ler e escrever, mas fiquei quieto, até porque Linduarte leu meus pensamentos e falou ao pé do meu ouvido: “Você nunca conheceu antes um advogado que atravessou o Mar Vermelho de a pé”! Tive que concordar, mas me deu uma vontade louca de pedir pro Moisés cantar alguma coisa, só pra ver se ele confirmava aquela lenda de que gago não gagueja cantando… Olhei na prateleira da biblioteca do Linduarte e vi o livrinho de cantos hebraicos, chamado Hagadá, que reúne as músicas da Pessach (a Páscoa judaica que comemora a fuga do Egito) e quase lhe alcancei a Moisés, solicitando-lhe que puxasse em Lá menor o hino “Avadim Hayinu”. Não haveria desculpa de esquecer as letras ali com o livrinho em mãos, mas bem nessa hora chegou o terceiro convidado do Professor.
          Fomos surpreendidos pois que veio acompanhado. Jesus e Judas chegaram na paz dos humildes. Moisés é que fechou a cara. Depois deles chegarem, mal abriu a boca para comentar de seus pés de oliveira em Canaã, morrendo também na mesma hora o assunto das leis divinas, afinal, com o filho do Chefe ninguém brinca. Curiosamente Judas foi quem falou o tempo todo. Não sei se para impressionar a linda Ostara, mas inclusive deu uma palestra vivamente acompanhada pelo Linduarte, sobre a necessidade de todo o líder e herói ter um canalha traidor e alcaguete por perto. Se nosso destino já vem traçado desde o nascimento, pelas estrelas e pelos deuses imortais, sem nenhum erro de ortografia, mesmo entre tanta linha torta, Judas e Jesus já estavam de acordo do beijo e da traição desde sempre e pra sempre nas alturas do Céu. Linduarte falou para mim: “Já li isso naqueles evangelhos apócrifos, que ficaram de fora da Bíblia, porque foram escritos por cristãos gnósticos”, eu disse “o quê?”, ele disse, “cristãos místicos, Carlos, cristãos místicos, em que a traição de Judas era bem descrita assim, como um mal necessário para a Paixão de Cristo mudar o mundo”.
      Prof. Linduarte ofereceu a Jesus que almoçássemos ouvindo um disco gospel. E lhe perguntou qual cantor ou cantora seria de seu agrado, que puxávamos o disco no YouTube, mas Jesus, simpático e muito calmo, disse não lhe agradar o repertório gospel. Achava pouco criativo e, por demais, apelativo. “Veja, meu filho”, disse algo assim, o Cristo, “nunca fui de falar muito claro em meus sermões e agora vem este povo e escreve panfletos em meu nome”. Todavia, sempre apaziguador e respeitoso das diferenças, aliás como nenhum outro herói que passou pela casa ou pela biblioteca do Prof. Linduarte Cantor, Jesus arrematou pedindo: “toque o disco do Woody Guthrie. Este cantor americano fez uma música gospel que talvez seja a melhor”! Prestei bastante atenção na letra de 1940, afinal era uma mensagem divina, e senti que Woody representava bem ao Jesus que tinha em minha frente, com sua música falando das pessoas com quem Jesus pode contar há 2000 anos atrás – pobres e trabalhadores, e sobre quem quis vê-lo dependurado numa brutal e triste cruz – sacerdotes, fazendeiros, soldados e banqueiros.
    Chegando diretamente de Miami, com duas coelhinhas, capa de revista americana, nosso último convidado a dar o ar da graça foi o Coelho da Páscoa. Ofereceu-nos cortesias de seus novos produtos feitos em Gramado. Fumava charutos caribenhos e disse que o vinho só beberia se fosse do Porto de Portugal, pois ficava com dor de cabeça, com esses vinhos fuleiros do Brasil. Gostava mesmo era dos espumantes da Champagne, na França, disse também. Mal falou sobre a Páscoa. Não citou renascimento nenhum, sequer a ressurreição de ninguém importante. Mas sabia tudo sobre carros importados, sobre o preço do chocolate na bolsa de valores, apoiava a reforma da previdência proposta pelos bancos para os idosos, e achava que se o Natal continuasse vermelho, por causa do Noel, seria um prejuízo enorme para os comerciantes, pois isso era um estímulo à corrupção. Mostrava uma pança avantajada e disse que tinha pressa, que ia inaugurar uma nova fábrica de doces logo mais, no distrito industrial de Gravataí, inclusive com a presença de padres e pastores, pois a fé fazia muito bem para quem é empreendedor. Olhou nos meus olhos e disse: “Ninguém prospera sem fé no seu próprio negócio, rapaz”. Reparei que em nenhum momento o Coelho reparou na mais ilustre de nossas presenças. Muito menos lhe dirigiu a palavra. Jesus, por sua vez, há muito, tinha ido pro pátio dos fundos, estava brincando, preguiçosamente, com os gatos, cachorros e com os dois filhos do prof. Linduarte Cantor, ambos trazendo beiços lambuzados de chocolate.
          Quando todos foram embora, e eu terminei de lavar a louça, peguei do velho violão e cantei o seguinte poema:

VENTOS de PÁSCOA
Que os teus hebreus estejam libertos do cativeiro do Egito
Que o teu Cristo tenha renascido outra vez e de novo e de novo –
A despeito de todas as Cruzes do mundo;
Que os teus pagãos ponham o arado na terra, pois é tempo de plantar
E que façam uso de suas foices, já que também pode ser tempo de colher:
Isto só depende da lavoura de cada um;
Que as tuas crianças demorem a limpar os beiços sujos lambuzados do chocolate
(tão cheio de surpresas quanto o restante da vida)
E que o Coelho lhes cobre, em troca, apenas o equinócio de um sorriso de outono.
(c. a. albani da silva, o inventor do vento)


sábado, 13 de abril de 2019

PAI dos BURROS



Humberto Werneck dando uma força:

-E-

ECO: Encontrar eco / Só o eco responde
ECONOMIA: A economia é a base da porcaria / O motor da economia / Parcas economias
EDIFÍCIO: Edifício majestoso
EDIL: Nobre edil
EFEITO: Efeito cascata / Surtir efeito
EFERVESCÊNCIA: Efervescência cultural
ÉGIDE: Sob a égide de
EIRA: Sem eira nem beira
ELEFANTE: Ser dose para elefante / Ser um elefante branco / Ter sutileza de elefante
ELEGÂNCIA: Árbitro da elegância / Elegância de maneiras / Elegância descuidada / Elegância discreta / Elegância impecável / Fina flor da elegância
ELEMENTO: A polícia prendeu o elemento / Estar no seu elemento.
(O pai dos burros - dicionário de lugares-comuns e frases feitas, Arquipélago, 2014).


quinta-feira, 11 de abril de 2019

Bachelard científico



"É imensa a distância entre o livro impresso e o livro lido, entre o livro lido e o livro compreendido, assimilado, sabido! Mesmo na mente lúcida, há zonas obscuras, cavernas onde ainda vivem sombras. Mesmo no novo homem, permanecem vestígios do homem velho. Em nós, o século XVIII prossegue sua vida latente; infelizmente, pode até voltar. Não vemos nisso, como Meyerson, uma prova da permanência e da fixidez da razão humana, mas antes uma prova da sonolência do saber, prova da avareza do homem erudito que vive ruminando o mesmo conhecimento adquirido, a mesma cultura, e que se torna, como todo avarento, vítima do ouro acariciado".
(GASTON BACHELARD, p. 10, A formação do espírito científico, 1938, na tradução de Estela dos Santos Abreu, Ed. Contraponto)

quarta-feira, 10 de abril de 2019

#24 DIGA CÁ



PLAYLIST do LIVRO
CONTOS pra CANTAR do INVENTOR do VENTO
#24 DIGA CÁ

Gostaria que o século XXI fosse feminino.
Então perguntei a uma lavadeira, a uma faxineira, a uma estudante,
a uma jornalista, a uma jogadora, quem manda no Brasil?
Aguardo as respostas.

DIGA CÁ
(c. a. albani da silva, o inventor do vento)

Me diga cá, senhora LAVADEIRA,
o que faz a diferença neste Brasil?
Será o presidente? Será a empresa? Será a igreja? Será a terreira?

Me diga cá, senhora FAXINEIRA,
o que faz a diferença neste Brasil?
Será a escola? Será a televisão? Será a universidade? Ou toda gente trabalhadeira?

Me diga cá, mocinha ESTUDANTE,
o que faz a diferença neste Brasil?
Será o exército? Será o índio? Será o negro? Será o mestiço?

Me diga cá, querida JORNALISTA,
o que faz a diferença neste Brasil?
Será a natureza? Será a mulher? Será o Silviossantos? Será a Grobo?

Me diga cá, querida JOGADORA,
o que faz a diferença neste Brasil?
Será o dinheiro? Será a fé? Será a ciência? Ou a influência? A
Independência? A Inconfidência? A paciência?
(Haja paciência, meu irmão!)


terça-feira, 9 de abril de 2019

GRAVATAÍ – entre dois aniversários, uma meia festa, arrumamos as gravatas



GRAVATAÍ – entre dois aniversários, uma meia festa, arrumamos as gravatas

      Nasci, moro e trabalho numa cidade que tem dois aniversários e uma meia festa. Assim, o povoado colonial, chamado Aldeia dos Anjos, no dito pelo não dito dos historiadores, se fala que foi fundado em 08/04 de 1763. Mas foi em 23/10 de 1880 que inventaram o município moderno com nome de rio, Major Bernardo pra lá, Cel. Fonseca pra cá, flores de gravatá no meio dos governamentos ilustres que seguem desde então. Ainda temos, ou melhor, os católicos têm, como eram meus avós, a festa da padroeira: Nossa Senhora dos Anjos em 02/08, padroeira também da Costa Rica na América Central e de Los Angeles, logo ali na Califórnia, EUA, me informam dois demônios que esperam ônibus na parada e gostam de ler sobre geografia e as coisas do céu. A seguir o roteiro do povoado fundado no século XVIII, podemos arrotar entre a gauchada que estamos assim assim entre a meia dúzia de cidades mais veteranas do Rio Grande do Sul! Algo como: Rio Grande (1737), Santo Antônio da Patrulha (1743), Viamão (1747), Triunfo (1754), Porto Alegre dos Casais (1772): ops, a capital surgiu depois de nós! Caceta! Mas isso é polêmico como o sexo dos anjos, ainda por cima morando na terra deles. Então me calo.

           O povoamento colonial é mais ou menos assim: por volta de 08 de abril de 1763 o capitão Antônio Pinto Carneiro chegou ao Vale do Rio Gravataí com cerca de mil e um índios guarani vindos dos Sete Povos das Missões (as cidades barrocas entre São Borja e Santo Ângelo, vocês sabem). Depois das Guerras Guaraníticas (1753-1756) em que o índio Sepé Tiaraju (com seu lunar mágico à testa) se juntou com outros índios missioneiros putos dos cornos e de vários padres jesuítas putos também, mas mantendo o decoro pra não cometerem muitos pecados, botaram bravamente pra cima dos mandos e desmandos do Império de Portugal e da Espanha aqui no Sul do Brasil Colônia. Depois da guerra, perdida, como a maioria das guerras, dizia eu, o Rio das Bromélias (Gravataí) e o Morro Itacolomy (ou do Menino de Pedra) acolheram a essa gentarada cansada de briga. Não demoraria muito e a Aldeia de Nossa Senhora dos Anjos receberia também famílias portuguesas vindas das nove ilhas de Açores, sacolejando heroicamente em naus catarinetas, sete anos e um dia no mar; trabalhadores africanos escravizados desde a Nigéria, Angola e Moçambique – e que aqui ergueram os seus quilombos (do Paredão, logo ali em Taquara; Manuel Barbosa, aqui mesmo, quase em Glorinha) para cultuarem os orixás e a distante Mama África do outro lado do mar Atlântico; muitos portugueses e espanhois aleatórios vieram cafungar aqui, atrás de índias, ouro e terra (se vê, quando acharam uma coisa, não acharam a outra); vários colonos alemães (a partir de 1824 foram branquejar germanices nas redondezas desde São Leopoldo e Novo Hamburgo no vale do Rio dos Sinos); italianos (a partir de 1875 na Serra gaúcha, um pouco em Sto. Antônio também, trazendo seus vinhedos cultivados aos gritedos de galinha com polenta); poloneses na polska Erechim e de lá pro cosmos pampa; japoneses (a partir de 1908 desde São Paulo, meu amor) que vieram se achegando. Para cada manso trabalhador em busca de mansidão, um sem fim de conflitos.

           Digo mais – para desespero dos gloriosos governamentos da Aldeia, foi a Gregória Rita Coelho de Mendonça, bem provável, a 1ª professora pública do RS, alfabetizando os guarani da Aldeia no século XVIII, suas crianças e idosos... Se ainda se usasse lista telefônica, sopra-me o demônio estudioso, no ouvido esquerdo, proveitoso seria eu procurar o número do ilustre carreteiro da Costa, o matadouro de gado do Fonseca, o tambo de leite do Gomes, passear pelo Passo das Canoas com o Pacheco, jogar o jogo do osso com o Maciel, espiar o arrozal do Rosa, e as cochas da filha do Rodrigues, o Sarmento e o Soares contando causo de assombração na botica da Rua de Baixo; entre outros bons momentos com os coroneis da farinha. Talvez embaralhei algum nome aí. Com a boca cheia de mandioca em pó, gargalharia pifado no carteado que eu não sei jogar...

             Deste município nasceram outros – Canoas (1939), Cachoeirinha (1966) e Glorinha (1988). Porém, uma velha amiga marxista (ou seria um demônio?) escreve-me atucanada, me alembrando temerosa de meus preguiçosos esquecimentos, antes que acabe esta croniquinha, que a rural Aldeia dos Anjos virou cidade mesmo somente entre os anos de 1968 e 1982 ao receber um Distrito Industrial. Distrito este sucedido no ano 2000 pela inauguração de uma montadora de automóveis multinacional com seu complexo industrial próprio (e muitas isenções fiscais).

         Nesse processo de modernização econômica surgiram os bairros operários (Moradas do Vale I, II e III; COHAB´S A, B e C), ademais bairros e comunidades suburbanas na periferia da cidade – que é o “povo das paradas” (de ônibus). Igualmente vieram os condomínios fechados e belos residenciais em que se dá oi, chegando ou partindo, a um guarda na portaria, seguramente, dos cumprimentos e dos ladrões. Na real, continuamos uma aldeia, só que agora global!
(C. A. Albani da Silva, o Inventor do Vento)

sábado, 6 de abril de 2019

#23 E SÓ



#23 E SÓ
No verão de 2011 me caiu em mãos um velho violão Giannini desafinado e só. Há 30 anos não soava uma nota naquele instrumento.
Bolei assim uma cantoria ave fênix pra ele, celebrando vários autores que encheram (ou será que esvaziaram?) a minha Cabeça de Vento:
1 – CARMEN MIRANDA: a primeira voz que cantou o Brasil pro mundo, nos anos 1940, com seu Bando da Lua;
2 – VINCENT van GOGH: o holandês que pintou a melancolia em traços de girassóis, corvos e noites estreladas; tinha muito amor pra dar, mas os anos 1880 não estavam prontos para receber;
3- JOAN BAEZ: a voz feminina que fez o Bob Dylan virar homem;
4 – DORIVAL CAYMMI: o baiano que no gogó, violão e mais algumas histórias de pescador fez o resto parecer história de pescador em 1959;
5 – FRANCISCO de GOYA: o espanhol que pintou a fúria da revolução francesa e de seu imperador Napoleão em 1800;
6 – MERCEDES SOSA: la negra voz da América Latina;
7 – MAHATMA GANDHI: o indiano pacifista de uma modernidade alternativa em 1940, antes do Buda engordar;
8 – ROLLING STONES: a boca desbocada do rock bagaceiro bem sacana antes que meio mundo fosse metido à sacana ou à bacana depois de 1968;
9 – CHE GUEVARA: o Dom Quixote de 1959 sem a triste figura em Buenos Aires, Cuba, Congo e na Bolívia;
10 – VICTOR JARA: cantador chileno que cantou o João Sem Terra e a Amanda em 1970;
11 – MACHADO de ASSIS: o maior psicólogo da canalha chamada burguesia brasileira em 1900, orgulhosamente escravocrata até hoje;
12 – RAUL SEIXAS: o filósofo maluco beleza do Zé Povão, um tom acima da Jovem Guarda;
13 – DOM QUIXOTE: o Che Guevara católico renascentista de triste figura em 1615;
14 – JACKSON do PANDEIRO: forró no alto do coqueiro para a ema dançar de pescoçada e o Tio Sam ficar de fora;
15 – LIMA BARRETO: triste visionário da negritude que ou abraça a Mama África ou embranquece desgraçadamente…
16 – GELSON OLIVEIRA: desde a Serra gaúcha soltando pipa pandorga papagaio para a glória da imaginação do homem-menino, menino que é homem;
17 – ALEJO CARPENTIER: autor cubano de sinfonias iluministas em meio a ditadores cheios de métodos, dólares, casas em Paris e panças largas;
18 – LUPICÍNIO RODRIGUES: quando Porto Alegre inventou a dor de cotovelo dos pobres moços esses moços sobre mesas de bar: uma judiaria;
19 – KARL MARX: o escriba alemão que sonhou a revolução judaico-cristã neste mundo e não no outro, ao invés do banquete das máquinas movidas a dinheiro e devoradoras de carne humana;
20 – No coração uma MENINA MORENA e só.
(c. a. albani da silva, o inventor do vento)

PLAYLIST do LIVRO
CONTOS pra CANTAR do INVENTOR do VENTO


quarta-feira, 3 de abril de 2019

ANDERSEN e a primeira tristeza!


Josef Palecek, 1981

ANDERSEN e a primeira tristeza!

Se não me atrapalho comigo mesmo, acho que o primeiro contato que tive com a tristeza foi lendo um dos contos de fadas do Hans Christian Andersen (1805-1875). Filho de sapateiro e lavadeira analfabeta, nascido quase no Polo Norte, em Odense, Dinamarca, o operário Andersen aprendeu a contar histórias ouvindo por anos a fio as velhinhas de um asilo a tecer o fim de suas vidas com lã e causos. Foi-se embora para Copenhague escrever livros depois de perder o pai e comeu o pão que o diabo amassou até ganhar o patrocínio do rei para viver de sua arte, alcançando a celebridade.

Mas o que marcou o jeito de contar histórias para as crianças de Andersen era seu desejo de autor, ou seja, elaborar os seus próprios contos e poemas pessoais. Em 200 contos diferentes, Andersen inventou histórias que não eram nem recolhidas do folclore oral de camponeses, como os Irmãos Grimm fizeram na Alemanha de 1812, ou pesquisadas na França rural para a corte dos aristocratas, como fez o francês da Mamãe Gansa, Charles Perrault (1628 a 1703), muito menos resgatadas das fábulas do corcunda Esopo, da Grécia Antiga, por Jean de La Fontaine (1621-1695). Era quase tudo inventado da cabeça do Andersen mesmo, que começou a publicar em 1822, do próprio bolso, seus Contos de Fadas.

Em 1993 eu estava aprendendo a ler e a escrever, quando soletrei, para a família Albani da Silva, a pedido das tias, as letras da palavra-remédio-para-o-nariz: rinosoro, carregando no som dos erres: RRRINOSSSORRRO! Até hoje, carinhosamente elas riem de mim. Nessa mesma época, talvez já em 94, não lembro direito, caíram em minhas mãos três livros com recontos de Virgínia Lefèvre, pela Editora do Brasil, e com textos ilustrados, do maluco do Andersen. Tenho a impressão de Mamica ter comprado os mesmos de um livreiro desses que iam de porta em porta vender bíblia, enciclopédia e literatura infantil, mas acho mesmo que foi meu irmão, Leco Brown, quem os ganhou como um prêmio escolar, sei lá por quê. Mas o que importa é que a SEREIAZINHA me levou às lágrimas pela primeira vez.

A guria-peixe morava no fundo do mar, com rabo feito de escamas, no lugar das pernas, criada entre irmãs vaidosas; com o pai, rei do povo do mar; e pela avó, portanto, órfã de mãe. Aos quinze anos, toda sereia ganhava de presente a chance de espiar a superfície. Sendo a caçula entre seis sereias, ela ouvia o relato da superfície do mar, ano a ano, de cada uma das irmãs: as luzes brilhantes da cidade grande; os sinos das igrejas; o poente do sol no horizonte; vinhedos, castelos e fazendas na terra firme; florestas verdes também; crianças e cachorros que temiam as sereias como a monstros e sabiam nadar sem nadadeiras; navios enormes abarrotados de mercadorias; golfinhos e baleias fazendo piruetas para os marinheiros; geleiras e águas congeladas no inverno.

No seu aniversário, a SEREIAZINHA não só subiu até a beira da praia como salvou um príncipe bonitão de morrer afogado. E afogada ficou ela pelo desejo, tanto que embestou de provar da curta vida dos humanos, compensada por uma alma imortal, ao menos para àqueles humanos da crença bíblica ou judaico-cristã. A SEREIAZINHA apelou então para a Bruxa do Mar, voltando às profundezas do oceano, trocando a sua encantadora voz de contralto por pernas que lhe doíam como mil agulhas lhe espetando, isto tudo só para bailar com o bonitão que roubou o seu coração. Andersen resolveu escrever que suas sereias viviam longamente, mas ao morrer, simplesmente viravam espuma do mar sobre as ondas das praias, sem chance delas terem uma alma imortal... Além disso, estavam condenadas a não poderem chorar, já que as lágrimas debaixo d´água seriam redundâncias como ligar um chuveiro embaixo da chuva ou debaixo de uma cachoeira e chuá-chuá.

Assim a PEQUENA SEREIA deixa sua língua no caldeirão, enquanto a Bruxa mistura o sangue de seu próprio seio macabro ao elixir ainda mais macabro de humanidade. Feita mulher, com pernocas, dois pés e tudo, a SEREIAZINHA não poderia voltar a ser sereia, exceto se o amor do cavalheiro fosse seu. E, sim, ela balançou os desejos do moço, pois era bonita, mas ele logo lhe revelou ter uma dívida de gratidão com quem lhe acolheu na beira da praia, ao ter sobrevivido miraculosamente, a um naufrágio, tempos atrás…

Casando-se então com outra, e muda de sua poderosa voz, a SEREIAZINHA nunca pode contar ao gostosão que fora ela quem lhe salvou, ainda inconsciente, do desastre marítimo! Entretanto, suas irmãs não aguentaram a saudade e recorreram elas também à feiticeira, recebendo da tinhosa bruxa, em troca de seus longos e lindos cabelos, uma adaga enfeitiçada que, ao romper da aurora, sangrando-se o príncipe apaixonado por outra mulher, voltaria a SEREIAZINHA à condição de pertencer ao reino dos animais aquáticos e não ao mundo de pó e ossos dos seres humanos.

Diabos! A guria olhou, muda, o casal de noivos e não teve a coragem (ou a covardia?) de lhes sacrificar a faceirice em que estavam, totalmente apaixonados. Então ela chorou pela primeira vez, erguendo os braços pro céu. No navio os noivos olharam fixamente as espumas do mar. Invisível, a SEREIAZINHA beijou o príncipe e sua esposa e foi-se elevando até o céu, sobre uma nuvenzinha cor-de-rosa. Virou espuma.

E na capa do original que li e ainda tenho até hoje, dizia assim “… e outras histórias bonitas”.
(c. a. albani da silva, o inventor do vento, 02.04.019)

terça-feira, 2 de abril de 2019

Uma MÁQUINA de ABRAÇOS por uma MENINA ESTRANHA: O AUTISMO



Uma MÁQUINA de ABRAÇOS por uma MENINA ESTRANHA: O AUTISMO
Temple Grandin é uma menina estranha, por causa do autismo. Mesmo assim bolou uma máquina de abraços para diminuir a dificuldade afetiva que pode ser o contato físico para um autista. O mais doido nem é isso: é que ela foi uma das primeiras autistas da história a escrever uma autobiografia! 

O autista, dizem os estudiosos desde os anos 1940, entre eles, Johann Asperger (1906 a 1980) e Leo Kanner (1894 a 1981) são mentes que pensam e sentem diferente o mundo. Suas limitações para se comunicar, interagir no coletivo, e muitas vezes, os seus comportamentos repetitivos, revelam que, ao invés do todo, o que interessa ao autista (num amplo leque de níveis do transtorno) são apenas algumas partes da existência.

Temple Grandin, com sua blusa de cowboy, nasceu em Boston em 1947, e só foi falar com quase quatro anos. A mãe sacou isso e atacaram o problema desde então com muito estímulo (especialmente dos professores) e afeto. A mãe da moça inclusive engoliu a seco por muito tempo uma possível culpa por ser fria e insensível com a sua bebê. Hoje gente graúda e esperta como a dra. Uta Frith (1941) afirmam que isso de “mãe geladeira” causar autismo é balela.

Dizia eu que a mente autista, em menor ou maior intensidade, tem o foco nas partezinhas do mundo, não na teoria geral. Temple, por exemplo, tinha uma memória visual, e empregava sua dificuldade de socializar, observando o comportamento de bois e vacas na fazenda da família. Ela se sentia uma antropóloga em Marte, entre as pessoas, mas muito em casa na mansidão dos ruminantes. Mesmo péssima em álgebra, mas boa em geometria, ela projetou uma máquina de abraços, inspirada no jeito que o gado era vacinado no campo em 1965. Uma leve pressão e uma breve imobilidade já aconchegavam o ansioso coração do autista, claro, no caso, do jeito que o autismo se manifestou em Temple. 

Aliás, formada engenheira agropecuária, desenvolveu melhorias no abate do gado, hoje usados mundo afora. Gaudérios bagualudos do rio Gravataí, fãs de açougues e de churrascos, talvez saibam disso. 

O autismo já foi considerado psicose infantil e mesmo uma esquizofrenia. Até hoje não existem medidas biológicas, sequer grandes instrumentos de diagnóstico, a não ser a observação e o histórico da pessoa. Mas para sair das suas ilhas de habilidades, o autista precisa de um cuidadoso estímulo, com desafios sensatos ao seu dia a dia.

Gênios como Temple Grandin ou o Raymond do manjado filme “Rain Man” (1988, do diretor Barry Levinson) são minoria. Pois outra lenda que cerca o autismo é a da extrema inteligência. Não é bem assim. Agora uma coisa afirmo eu: quem aprende a conviver com um autista (detalhe: ocorrem mais meninos que meninas autistas, dizem as últimas estatísticas), ou seja, os familiares e educadores, estes, rapidamente, aprendem com eles e elas a fugir da extrema burrice. Obrigado, autistas! Ninguém precisa ser extremamente inteligente em nada. Mas também não precisa ser extremamente burro em tudo. Vuuuush!
(c. a. albani da silva, o inventor do vento, 02.04.019)