quinta-feira, 17 de outubro de 2013

A pobreza também é filha dos dias

Georg Eisler, Chicago Blues, 1992


Guerras caladas*
(Eduardo Galeano, 1940)
           
         Hoje é o Dia contra a Pobreza.
         A pobreza não explode como as bombas, nem ecoa como os tiros.
         Dos pobres, sabemos tudo: em que não trabalham, o que não comem, quanto não pesam, quanto não medem, o que não têm, o que não pensam, em quem não votam, em que não creem.
         Só nos falta saber por que os pobres são pobres.

         Será por que sua nudez nos veste e sua fome nos dá de comer?
* Do livro “Os filhos dos dias” (2011).


Cleiton AmorimHave a little faith in me (2013): O produtor do disco “Cavalgando o Vento” solta a voz, acompanhado de músicos que também participaram do álbum do CoV, como João Cândido, no sax, e Daniel “San”, no teclado
Assista a este vídeo também no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=fNcN5wfp1oU


Oswaldo MontenegroQuem é que sabe? (2012): 


Oswaldo MontenegroTodo mundo tá falando (2012): 


Oswaldo MontenegroEu quero ser feliz agora (2008):

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O dia vai ser nublado (cenas da vida em Marte)

Belamazona, Amuleto Muiraquitã, Sete luas antes da chegada do homem branco


O Dia Vai Ser Nublado*
(C. A. Albani da Silva)

O João levantava tão cedo que não era mais preciso dormir
Ele que acordava o galo para o galo cantar
O João por causa disso nem conseguia mais sonhar
O que era um problema, pois ganhava dinheiro e não sabia onde gastar

João
Meu irmão

O João tinha um velho amigo que se chamava José
O José pretendia estudar filosofia
Tomou um empréstimo do banco para pagar a faculdade
E logo aprendeu que no mundo não há apenas uma verdade

José
Filósofo

O José tinha uma namorada que se chamava Maria
Tão meiga quanto uma flor seja de noite ou de dia
Num fim de semana qualquer em que José estudava a sociedade
Maria saiu com Marcelo e acabou aprontando algumas sacanagens

Maria
Mamãe

Na casa da Maria trabalhava um pedreiro que costumava contar umas histórias
Dizia que havia viajado pros EUA
Lá ganhava muita grana trabalhando de frentista num posto
Mas ele abandonou o Tio Sam porque sentia saudades do nosso café

Café
No bule

O pedreiro tinha uma irmã que frequentava uma comunidade espírita
A irmã dizia reencarnar a Luíza Mahin
Esta, por sua vez, reencarnava a Cleópatra
Sua sina era lutar pela liberdade sem fim

Abaixo com os grilhões
Ponham isso nas Constituições

A irmã do pedreiro tinha um namorado chamado Leandro
Ponta esquerda do time da loja de sapatos
Na final do campeonato de várzea num domingo ensolarado
O Léo bateu a falta no ângulo e correu pro abraço

Leandro
Campeão

O Leandro era sobrinho de um metalúrgico de esquerda
Líder de um sindicato da categoria
Certa empresa se negava a dar uma cesta e um peru de Natal
Alegando que a crise era grande no mercado internacional

Tio do Leandro
Greve geral

O tio do Leandro era neto do Seu Mathias
Seu Mathias se lembrava saudoso dos tempos de Getúlio Vargas
Contava que esteve presente na inauguração da Petrobrás
E acreditava que Getúlio tinha sido assassinado

Seu Mathias
Bons tempos que não voltam mais

A segunda esposa do Seu Mathias era descendente de italianos
O avô dela chegou por aqui em 1875
Dona Irene conheceu Seu Mathias num terreiro de umbanda
Casaram-se abençoados por Xangô

Xangô
Iansã

Um dos padrinhos do casamento de Irene era advogado
Especialista em Direito familiar
Todos os filhos de Dr. Antônio também seguiram a advocacia
Era uma grande família de homens da Lei

Vossa Excelência
Doutor

Dr. Antônio teve uma bisneta que não conheceu
A Camila era filha do seu neto mais moço
Ela mandou pro espaço todo esse papo de legislação
E foi embora pra São Paulo estudar teatro

Vitupério
Desgosto pro velho

A Camila teve uma professora chamada Otília
Ela sempre incentivava os seus dotes artísticos
“Sora” Otília havia nascido em Manaus, Amazonas
Sonhava em casar com um francês e ir morar em Paris

Tout comprendre
C´est tout pardonner

“Sora” Otília tinha um irmão que enfiou na cabeça que ia ser cineasta
O Irajara vendeu o seu carro e comprou uma câmera
Tentou fazer uns filmes “cabeça”, mas não obteve nenhum sucesso
Até que alugou um barraco apertado e montou uma empresa de filmes “pornô”

Filmes “cabeça”
Sussurros e gemidos

A Marlene trabalhou por dez anos na “Ira - Prazeres e Produções”
Depois que largou a carreira de atriz fundou uma creche
Aplicou boa parte das suas finanças em obras de caridade
Desfilou nua na rua em protesto pelas Diretas Já

Marlene
José Sarney

A Marlene costumava almoçar e jantar no restaurante do Paulo
O Paulão tocava teclado na paróquia do bairro
Seguido sentia saudades da Juventude Católica
E sempre comentava aos amigos que lá conheceu a mulher

Nossa Senhora do Rosário
Este mundo não tem mais solução

O Paulão não gostava muito do emprego do primo
Pois Luciano era pastor neopentecostal
Também havia se filhado ao Partido dos Trabalhadores
E estava de viagem marcada pra uma reunião do Comitê Regional

Pastor Luciano
Almoço grátis no Paulão

Pastor Luciano era sogro do Pedro
O Pedro era policial militar
Pastor Luciano não gostava nenhum pouco disso
E vivia dizendo pro genro virar guarda municipal

Estimado Pedro
Jesus é o Senhor, Ordem é Progresso

Tenente Pedro era pai do jovem André
O André tocava guitarra numa banda de rock
Apesar do Tenente insistir que música boa era samba e vaneira
Pro André música de verdade era com o Led Zeppelin

André
Stairway to Heaven

O André estava gamado na colega Elisa
A Elisa era a coisa mais linda que ele já tinha visto
Quando Isa passava na escola era como se o mundo inteiro parasse
E a única coisa que se restasse movendo fosse o coração do André

Elisa
Nos pensamentos do André

A Elisa era vizinha do incansável João
Aquele que acordava o galo para o galo cantar
Isa tinha cinco cachorros e uns nove gatos que
Viviam sujando o pátio e roubando as roupas no varal do João

João
Técnico em computação
João
O dia vai ser nublado deu no jornal

Não há início melhor do que um ponto final.

Poema-canção publicado também na coletânea “Elo da Leitura”, organizada pelo professor Sebastião Medeiros e lançada na 27ª Feira do Livro de Gravataí - veja as fotos no Feicebuques do Vento: https://www.facebook.com/pages/Cavalgando-o-Vento/427725937254678


Já no SoundCloud do Vento:

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Despetalada Rosa

Subodh Gupta, Mente Desligada, 2008



CoVDespetalada Rosa: Com a participação especial dos músicos David Pitcovski (tampura) e Antônio Ramos (flauta), "Cavalgando o Vento" apresenta a canção "Despetalada Rosa", composição de C. A. Albani da Silva (o Inventor do Vento) gravada ao vivo em 01.10.2013 na cidade de Gravataí/RS. Na viola caipira: Mick Oliveira (o Profeta do Vento).


Dois Corpos
(Octavio Paz, 1914-1998)

Dois corpos frente a frente
às vezes duas ondas
são, e a noite é oceano.

Dois corpos frente a frente
às vezes duas pedras
são, e a noite deserto.

Dois corpos frente a frente
são às vezes raízes
na noite entrelaçadas.

Dois corpos frente a frente
são às vezes navalhas,
e é relâmpago a noite.

Dois corpos frente a frente
são dois astros que caem
num céu ermo e vazio.


SoundCloud do Vento: Para mais canções do CoV...

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O novo chapéu de Léo Leopardo

Paul Delvaux, O Congresso, 1941


O novo chapéu de Léo Leopardo
(C. A. Albani da Silva, o Inventor do Vento)

Léo Leopardo estava de chapéu novo
E eu cá pensando comigo mesmo
Como ele se sentia
Com aquilo na cabeça?

Léo Leopardo ficou bonito de chapéu novo
Alguém me disse que o viu saltitando de alegria noutra ocasião
Gostaria de ter visto esta cena
Mas apenas vi o chapéu novo de Léo Leopardo balançando
Pra lá e pra cá
Na cabeça do Léo Leopardo
Ou seriam meus olhos
Sob efeito do vinho?

Outro dia mateando no Por do Sol do Guaíba
Vi Léo Leopardo de chapéu novo
Não me aguentei de inveja
Tirei o cinto da calça
E enrolei na cabeça
O Por do Sol estava lindo
Mas o Sol, como sempre,
Indiferente às nossas
Macaquices

Fizeram até reportagem com Léo Leopardo
Ou melhor: com Léo Leopardo e seu chapéu novo
Entrevistaram também um clínico geral que disse
“Esse chapéu faz mal à saúde”!
Ainda tentando entender: 
o novo chapéu de Léo Leopardo faz mal à saúde de quem?
À saúde dos invejosos como eu?
(Que não aguentam a beleza de Léo Leopardo...)
[Digo, de seu chapéu novo]
{Porque do velho ninguém mais lembra}
Ou à saúde do leão africano que forneceu o couro para o chapéu de Léo Leopardo?
Ou finalmente à saúde do próprio Léo Leopardo por ser tão vaidoso?

Léo Leopardo apareceu esses dias de namorada nova
Uma moça que eu nunca tinha visto antes
Os dois se puseram a fazer amor na rua, em plena luz do dia
Mas ninguém reparou muito nisso
Todos os olhos estavam no novo chapéu de Léo Leopardo.

Fito Paez Mariposa Teknicolor (1994): 

Fito PaezEl amor después Del amor (2008): 

 Fito PaezContigo (2008): 

 Fito PaezConfiá (2010): 




quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Só Beatles e poemas

The Beatles, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, 1967

O que o tempo nos trará
(C. A. Albani da Silva, o Inventor do Vento)

Esse futuro que nos atormenta
Essa busca pelo amor
Pela igualdade: alguns
Pela riqueza: outros tantos
E quando o futuro deixar de ser assim? Vamos chamá-lo como?


The Beatles Don´t let me down (1969): 


The Beatles And I love her (1964): 


Passeio VII
(Hilda Hilst [1930-2004], dos seus “Exercícios” – 2001)

O Deus de que vos falo
Não é um Deus de afagos.
É mudo. Está só. E sabe
Da grandeza do homem
(Da vileza também)
E no tempo contempla
O ser que assim se fez.

É difícil ser Deus.
As coisas O comovem.
Mas não da comoção
Que vos é familiar:
Essa que vos inunda os olhos
Quando o canto da infância
Se refaz.

A comoção divina
Não tem nome.
O nascimento, a morte
O martírio do herói
Vossas crianças claras
Sob a laje,
Vossas mães
No vazio das horas.

E podereis amá-Lo
Se eu vos disser serena
Sem cuidados,
Que a comoção divina
Contemplando se faz?


The Beatles Lady Madonna (1968):

The BeatlesA hard day´s night (1964)

The BeatlesIn my life (1965):