Num almoço de 100 anos, ofereci galinha com polenta para CLARICE LISPECTOR (1920-1977).
Ela me pegou pela mão e me levou para dentro da consciência da galinha e depois me respondeu a velha pergunta: quem veio primeiro?
P.S.: Vamos enfrentando a pereba global, ficando em casa, e espalhando literatura para combater outro vírus medonho: o fascismo dos governos de extrema-direita e de parcela do empresariado que não aceita reduzir os seus lucros, ameaçando o povo com desemprego e tripudiando os idosos.
P.S. II: Esse mesmo pessoal, na última crise capitalista global, em 2008, despejou 15 trilhões de dólares (!) para socorrer os... BANCOS.
No
vale do rio Níger, Oeste da África, os griots iorubás, por
séculos, contaram esta história, que Leo Frobenius (1873-1938),
o viajante, me contou e eu conto agora procê assim:
GRATIDÃO
1.
O caçador foi para a mata
E
derrubou um antílope
Um
gato-de-algália sentiu o cheiro
E
faminto apareceu
Pediu-lhe
um bocado de carne
O
caçador lhe deu um bom bife
O
gato lembrou: - Posso lhe fazer um favor, quando precisar…
2.
Numa outra caçada
O
mesmo caçador se embrenhou
Na
mata fechada
Topou
com um crocodilo
-
Fui enganado! Moro no rio, mas vim parar aqui!
-
Salve-me que lhe darei muitos peixes!
Falou
o crocodilo
-
Com prazer! Falou o caçador
Puxando
o crocodilo numa corda
O
caçador levou o réptil ao Níger
Solto,
o crocodilo buscava os peixes Prometidos,
um a um…
Pôs
o primeiro no seco;
O
segundo no raso;
E
o terceiro peixe no fundo…
Quando
o caçador buscou esse último peixe
O
crocodilo lhe agarrou o pé!
De
um banco de areia
Vieram
os demais crocodilos:
-
Oba! Comida! Venham todos pro banquete!
(Berraram)
O
caçador lamentou: - É justo isso?
-
Te salvei, crocodilo perdido
-
E agora me devoras?
Os
crocodilos resolveram ouvir as coisas que
Um
dia pertenceram ao caçador:
3.
O tapete acusou:
-
Quando estava novo e limpo ele não me pisava
-
Até me enrolava com carinho
-
Mas quando fiquei velho e sujo ele me jogou no rio…
Sempre
sonhei com aquele beijo que você não me deu
Sempre
rezei pra todos os deuses que você nunca creu
Sempre
bebi todas as doses que você rejeitou
Sempre
lutei por utopias que você tantas vezes negou
Sempre
reli aquele livro que você nunca acabou
Mas
ainda assim, sinto falta de ti (4x)
Sempre
ri das piadas mais tolas nas horas impróprias
Mas
nunca engoli a vergonha de artimanhas inglórias
E
nunca esqueci daquilo tudo que outros tantos logo esquecem
Eu
nunca pedi nada daquilo que você não pudesse me dar
Vejo
a verdade como algo relativo, mas nem tanto assim (2x)
Sempre
busquei um samba blues no lugar desse seu pop tão
frívolo
Mas
nunca evitei saborear desse teu doce veneno no umbigo
Do
amargo provei quando colhi a tempestade que outro alguém semeou
Vou
lhe entregar um ramalhete de flores de fogo que a chuva apagou
Mas
ainda assim, sinto falta de ti (4x)
*
Faixa do álbum "Cavalgando o Vento", gravado entre
Julho de 2012 e Agosto de 2013, no Estúdio LACOS, em
Cachoeirinha/RS, com a produção de Cleiton Amorim e
apoio do FUCCA (Fundo da Cultura de Cachoeirinha).
**
Do capítulo XIII do livro “Contos Pra Cantar do Inventor do
Vento”.
Ficha
técnica da canção:
Letra,
Música, Voz: C. A. Albani da Silva, o Inventor do Vento
O
“Blues do Cachorro Magro” surgiu às 2h15 da madrugada, num verão
da Praia de Baunilha, flutuando nos Ares dos Mares do RS, bem
provavelmente, fevereiro de 2002. A Mamica dormia o sono dos justos
no quarto ao lado e o Inventor do Vento dava seus primeiros mergulhos
nas ideias da Modernidade, sentado com o violão e livros na mesa da
cozinha.
Esse
blues canta de uma maneira impressionista (coisas da razão juvenil,
evidentemente) e embaralha conceitos revolucionários para um
nascente coração entre o anarquismo e o comunismo.
No
mínimo, um coração simpatizante das promessas dos Iluministas que
inventaram, no século XVIII, a maior de todas as invenções humanas
que é o sonho utópico da Liberdade, da Igualdade, da Fraternidade.
O
embalo da canção foi num blues roqueiro mesmo, pois afinal, a
rebeldia irreverente e romântica do rock tal qual a negritude do
blues um dia fizeram o mundo dançar e isto, por um lado, deu que o
sistema capitalista também devorou todas as guitarras, gritos,
tambores e piadas roqueiras cuspindo mais uma nova praga-mercadoria
(a música pop), envelhecendo, talvez precocemente, essa manifestação
musical; por outro lado, porém, o rock - filho do blues das
encruzilhadas - despertou lá algumas consciências-cacholas mundo
afora, semeando fagulhas críticas & pensativas…
O
“Blues do Cachorro Magro” foi parar, em 2016, no capítulo XI dos
“Contos Pra Cantar”, páginas 54 e 55.
Oh
yeaaaaah!
O
BLUES DO CACHORRO MAGRO
(C.
A. Albani da Silva, o Inventor do Vento)
Nada
de políticos, nada de tribunais
Nada
de polícia, finanças ou capitais
Não
importa se você é ateu ou é cristão
Não
importa se você é um profeta ou um cagalhão
Não
importa a sua cor, a sua dor, o seu nome
Chega
de barreiras, chega de fronteiras, arrã!
A
lei é uma só, só existe uma lei
O
mundo é da gente e não pertence a nenhum rei
Não
importa se você é hétero ou é gay
Faça
a sua vontade e que a vontade faça o bem, arrã!
Reze
para deus, reze para mim
Só
não fique aí parado esperando que o mato cresça
Um
tempo de mudança está solto no ar
Então
é bom que a gente comece a pensar
Pense
um pouco, um pouco diferente
E
veja que o mundo, o mundo é da gente
Esqueça
a tevê, esqueça o jornal
E
veja as estrelas lá no alto a brilhar! IéIé!
Preste
atençãoà
voz do coração
E
veja se você érealmente
o patrão
Preste
atenção eolhe
muito bem
Qual
é o seu direito de querer mandar em alguém?
Sem
essa de clonagem
Já
basta sermos um
Pra
que viver pra sempre sem chegar a lugar algum?
O
homem mal sabe viver uma vida só
Imagine
a eternidade, ah, tenha dó!
-
O Homem é um bicho tão esquisito! Tá sempre procurando por
respostas, mas não sabe nem por onde começar as perguntas! –
Os
monstros TRAY,
CUPINN
e BICHÁ,
famigerados devoradores de livros, após longa averiguação pela
Praia de Baunilha e vizinhanças, constataram que, biblioteca, nem
sempre, é lugar de silêncio: margem de rio em dia de pescaria,
praia deserta no inverno, cemitério tirando fora feriado
dos
finados, quarto de hospital com gente só um pouco doente, templo
budista e igreja menos em missa, conferência de surdos mudos - estes é que são lugares de silêncio.
Bibliotecas
nem sempre…
RECITAL
PIMENTA COR-DE-ROSA
BIBLIOTECA
SESC GRAVATAÍ/RS
08/03/2017
Lançamento
do livro “CONTOS PRA CANTAR DO INVENTOR DO VENTO”