Mil escravos e um
artista, O leão de Ishtar nos portões de Babilônia,
1800 a. C
Quando uma
deusa perde seus fiéis, ela deixe de ser imortal. Foi o que aconteceu com Nana,
ou Ishtar, divindade na Antiga Mesopotâmia. Agora, não precisa ser babilônico
ou assírio para meditar mais um pouco, no século XXI, sobre a fertilidade dos
campos, as águas do Tigre e Eufrates, a sensualidade feminina, a maternidade.
Sendo
assim, o poema, em forma de carta, à ex-deusa, Nana, será entoado em
três ritmos: o terceiro, e último, deles, nesta semana de Carnaval, será o samba – folia de Momo, arlequim e colombina, reinventada por Tias Ciatas e pelas batucadas nos morros cariocas após a
Abolição e antes da Justiça social.
Nana
(C. A. Albani da Silva, o Inventor do Vento)
Nana, veja quantos
livros na estante e você não leu
Quantos dos seus
amantes você já esqueceu?
Nana, se ao menos eu
tivesse um bom conselho...
Nana, quantos dias eu
sequer pude olhar na tua cara
Mas quantas vezes mais,
desesperadamente, precisei do teu sorriso?
Nana, se ao menos eu
tivesse uma explicação...
Nana, fique com suas
mentiras que eu fico com as minhas
Eu sei que você sabe
que nossas vidas não são tão nossas assim
Nana, se ao menos eu
sentisse saudade...
Nana, saiba que ainda
te levo no peito
Para todo soldado
cicatrizes são medalhas
Nana, se ao menos eu
tivesse um bom motivo...
Nana, se um dia eu
voltar a me enxergar nos teus olhos
Espero enfim
reencontrar tudo aquilo que perdi
Nana, todo mundo leva
um pouco dos outros consigo...
Nana, em quantas
canções já ouvi o teu nome?
Mas nenhuma delas foi
feita pra ti
Nana, se ao menos eu
soubesse compor...
Nana, sei que o que
todos querem é ser felizes
Mas não será este mundo
pequeno para tantas felicidades diferentes?
Nana, se ao menos eu me
calasse...
(Gravada
no Laboratório de Sons do Vento, um pouco antes do bloco passar, logo depois da Mangueira entrar na Avenida)
Máscara
Rangda (espírito maligno feminino lá do Bali), Roubei de um antropólogo durante
um curso de extensão na USP, Até agora ele não percebeu, 2006.
Intro
Josué, 39, engenheiro químico, meu amigo, contou certa vez que seus anos têm 361 dias agradáveis e quatro dias
em que nada dá certo. Geralmente são os quatro dias de Carnaval. Ignorante quanto
à astrologia, semiótica, psicanálise ou parapsicologia o que me restou foi escrever
uma música: apenas pra sacanear o Josué - condenado a conquistar Canaã enquanto
todos os hebreus festejam a saída do deserto.
MarchinhaAlegre, CantigaTriste
(C. A. Albani da
Silva)
Refrão:
Tentei fazer uma marchinha alegre
Pra comemorar o Carnaval que vem
Mas só saiu esta cantiga triste
Repleta de mágoas, cheia de desdém
Fechei
as alas, pois ninguém passou
E
até o Zezé a cabeleira já cortou
Botei água na minha cachaça, cachaça na água
E ninguém tomou
Mãe, eu queria tanto a chupeta e fiquei
querendo,
Pois ninguém me deu
Perdi de vez a hora da aurora, nem fui
embora,
Nem o dia raiou
Minha espanhola nunca vira a Catalunha
Não tocava castanholas, nem pegava touro à
unha
Cheguei tarde às touradas de Madri
Fecharam os portões, não pude assistir
Na minha terra têm palmeiras onde canta o
sabiá
Mas aqui em casa só dá mesmo pardal e
araçá
Atrás do trio elétrico eu fui andando a pé
Não é que o dito cujo ele deu a marcha à
ré?
A canoa não virou, mas também não cheguei
lá
O que é que a baiana tem?
Tem caroço no angu, tem tico-tico no fubá,
Muitas contas pra pagar
O Imperador do samba foi deposto
E o frevo rasgado por inteiro remendado
Até esqueci aquela serpentina que a
colombina gorda
(Apontamentos
históricos e antropológicos para as tragédias da vida moderna)
* Já há algum tempo o dinheiro é mais importante
do que a vida alheia – é difícil sair sem pagar de um estabelecimento
comercial, mesmo quando há um incêndio;
* A primeira reação de muitos frente aos semelhantes é a
desconfiança – “não há incêndio
coisa nenhuma, é malandragem pra sair sem pagar”;
* A cultura do levar vantagem em tudo: 1) Empreendedores do ramo do
entretenimento noturno adoram colocar mais gente do que cabe em seus
estabelecimentos; 2) Universitários
em festas para arrecadar fundos para suas formaturas pensam parecido. Vender
mais ainda é lucrar mais...
* ...e assim nada deixa de virar mercadoria;
* Jovens notívagos, por vezes, gostam bastante de ambientes superlotados para se
divertir, pouco importando o conforto e o diálogo
entre si;
* Festa também significa orgasmo, alucinação, estupor, frenesi, loucura, caos – isso é bem bom; mas, por vezes, pode
ser trágico, violento e brutal;
* Luto não se confunde com inocência, portanto;
* Muitas casas noturnas funcionam sem estarem regularizadas, muito menos são
fiscalizadas pelo poder público;
* O desleixo do poder público e suas “vistas grossas”, às vezes, é fruto da corrupção proposta pelas entidades
privadas - empresários e empresas;
* Felizmente, pouquíssimas tragédias têm
acontecido em boates;
* Por mais cultos, jovens, modernos, brancos e diplomados que podemos pensar ser
ainda temos sérias dificuldades na vida pública
e em meio às crises coletivas;
* Desconhecemos amplamente a legislação (em parte,
municipalizada pela Constituição) referente à segurança e prevenção de
acidentes em locais de trabalho e diversão em grupo;
* Quase todo dia uma favela pega fogo Brasil
afora;
* Quase todo brasileiro é um super-herói enrustido
que se manifesta quase sempre depois das tragédias, quase nunca antes;
* Músicos da noite ganham cachês minguados, sendo
geralmente operários da cultura, contratados por empreitada, digo, festa;
* A juventude (15 aos 29 anos) é sinônima de imortalidade.
Mas somos nós, os jovens, que mais matamos e morremos
no Brasil atualmente;
* Tudo é tanto na sociedade industrial
(globalizada/capitalista/massificada): os produtos nas prateleiras; os
remédios; as doenças; a demografia; os carros; os acidentes de carro; a
poluição; as imagens; o conforto de uns; as tragédias de todos; o prazer; o
pranto.
* A vida é frágil a todo instante (para todos).
Tentar
sair do sentimentalismo (diante de
tantas tragédias)
A escritora Susan Sontag
(1933-2004) publicou em 2003 um livro instigante – “Diante da dor dos outros”. Na
obra, Susan elabora muitas perguntas sobre o impacto das imagens (pinturas,
fotos, filmes, cenas de TV, vídeos) que enfocam a dor, a guerra, a morte, a
destruição - desde as pinturas de Francisco de Goya (1746-1828), às fotos dos campos de
concentração nazistas, passando pela Guerra do Vietnã até a queda das
Torres Gêmeas em 2001. Uma de suas primeiras questões é: todos reagimos da mesma forma frente a imagens de dor?
“Nós” somos contra a violência e a barbárie – mas quantos significados cabem
num “nós”? E assim ela filosofa:
“As informações sobre o que se passa longe de
casa, chamadas de 'notícias', sublinham conflito e violência – 'Se tem sangue,
vira manchete', reza o antigo lema dos jornais populares e dos plantões
jornalísticos na tevê – aos quais se reage com compaixão, ou indignação, ou
excitação, ou aprovação, à medida que cada desgraça se apresenta”. (Susan Sontag)
“A imagem como choque e a imagem como clichê são dois aspectos da
mesma presença.” (Susan
Sontag)
Iemanjá, noite e morte
Nossa
Senhora
Vem
sobre os mares,
Sobre
os mares maiores,
Sobre
os mares sem horizontes precisos,
Vem
e passa a mão pelo seu dorso de fera,
E
acalma-o misteriosamente,
Ó
domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!
(Álvaro de Campos, trecho adaptado dos “Dois excertos de Odes”, 1914)
Trilha Sonora para o Carnaval
Acadêmicos de Gravataí – De
Aldeia dos Anjos a Gravataí: Um Poema de Amor no
Coração da Onça Negra(2013):Ficamos na torcida
pela escola da MV1 no Carnaval de Porto Alegre.
Neil Young – Psychedelic Pill(2012):Uma pílula (musical)
psicodélica pro Carnaval.
Mundo Livre S.A.– O mistério do samba(2000):Videokê do CoV. O samba
não é: carioca, baiano, do terreiro,
africano, da colina, do salão, da avenida, carnaval, da TV, do quintal,
emergente, da escola, fantasia, racional, da cerveja, da mulata, do playboy,
liberal, não é chorinho, não é regional, do bicheiro, do malandro, canarinho,
verde e rosa, aquarela, bossa nova, silicone, malhação, do Gugu, do Faustão.
Não tem mistério / Como
reza / Toda tradição: É tudo uma grande invenção.
Alvinho Lancelotti – Meu bloco de amor(2012):Desfila só pra mim /
Samba de dois / Que balança / No ar / Confetes pra gente brincar / Um beijo pra
ela pegar / O bloco do amor vai passar.
Tom Zé – Frevo(1972):Resumindo o espírito de
Carnaval: Não quero saber de conselho /
Esquece / Deixe pra lá / Me arranje / Um pecado / Quente / Pra me consolar /
Depois tem o ano inteiro / Pra gente pagar / Vou morrer / Se você não me
arranjar um pecadinho.
Rafael Castro e os Monumentais – 10% cristão(2010): Oh! Meu Deus!!!!!
Neil Young – Angry World(2010):Mundo furioso: para o empresário,
para o pescador.
Los Hermanos– Todo Carnaval tem seu
fim(2001):
Zé que dorme de pé /
Rosas chamadas / Bossa nova usada / Brincar de ser feliz / Pintando o nariz /
Nem toda banda tem um tarol...