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terça-feira, 7 de abril de 2015

Milonga para Rulfo e Onetti

Juliana Negreiros, A borboleta pousou em 2009


Cada vez mais pro inverno do que pro verão, os ventos do outono sopram e trazem consigo a “Milonga para Rulfo e Onetti”, 13ª música do CD do CoV, finalizado em 2013, e agora também disponível faixa a faixa no YouTube!


Acesse o canal Albani da Silva e ouça o Vento: https://www.youtube.com/user/AlbanidaSilva/videos 


Milonga para Rulfo e Onetti

Letra, música, violão, harmônica e voz: C. A. Albani da Silva, o Inventor do Vento
Violões e guitarras: Mick Oliveira, o Profeta do Vento
Bombo leguero, acordeão, baixo e teclados: Daniel “San”
Técnico de áudio: Luan Henrique
Produção: Cleiton Amorim
Gravada no Estúdio LACOS, Cachoeirinha/RS, entre julho de 2012 e agosto de 2013

O vento frio soprava lá fora
Na estrada gemiam os fantasmas
Ela saiu de Comala

O general mandava prender e matar
O doutor um jaleco branco puído usava
Ele esperando o trem chegar ao raiar do dia em Santa Maria

Pedro partia logo atrás, deixava o chão em chamas
Por que ela saiu de Comala?
Na garupa um vestido de xita dentro da mala

O circo chegava à cidade, trazendo Jacó e suas luvas de boxe
Indiferente ele esperando o trem chegar
Acendia outro cigarro pra lhe acompanhar

Deixemos o vento falar
Junto aos cadáveres Pedro seguia
No encalço da rústica camponesa que fugia pensando nos beijos do Dr. Díaz

El viento frio soplaba ahí fuera
En la ruta rechinaban los fantasmas
Ella salió de Comala

O general mandava prender e matar
O doutor um jaleco branco puído usava
Ele esperando o trem chegar...

A virgem grávida, o outro, os beijos
Deixemos o vento falar
Do campo santo em que gemiam os fantasmas
Suas memórias sobre as tardes e as noites em Comala



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Santa Maria, Iemanjá e Carnaval


Goya, A peregrinação de Santo Isidoro, 1821-1823

Sobre Santa Maria
(Apontamentos históricos e antropológicos para as tragédias da vida moderna)

* Já há algum tempo o dinheiro é mais importante do que a vida alheia – é difícil sair sem pagar de um estabelecimento comercial, mesmo quando há um incêndio;

* A primeira reação de muitos frente aos semelhantes é a desconfiança – “não há incêndio coisa nenhuma, é malandragem pra sair sem pagar”;

* A cultura do levar vantagem em tudo: 1) Empreendedores do ramo do entretenimento noturno adoram colocar mais gente do que cabe em seus estabelecimentos; 2) Universitários em festas para arrecadar fundos para suas formaturas pensam parecido. Vender mais ainda é lucrar mais...

* ...e assim nada deixa de virar mercadoria;

* Jovens notívagos, por vezes, gostam bastante de ambientes superlotados para se divertir, pouco importando o conforto e o diálogo entre si;

* Festa também significa orgasmo, alucinação, estupor, frenesi, loucura, caos – isso é bem bom; mas, por vezes, pode ser trágico, violento e brutal;

* Luto não se confunde com inocência, portanto;

* Muitas casas noturnas funcionam sem estarem regularizadas, muito menos são fiscalizadas pelo poder público;

* O desleixo do poder público e suas “vistas grossas”, às vezes, é fruto da corrupção proposta pelas entidades privadas - empresários e empresas;

* Felizmente, pouquíssimas tragédias têm acontecido em boates;

* Por mais cultos, jovens, modernos, brancos e diplomados que podemos pensar ser ainda temos sérias dificuldades na vida pública e em meio às crises coletivas;

* Desconhecemos amplamente a legislação (em parte, municipalizada pela Constituição) referente à segurança e prevenção de acidentes em locais de trabalho e diversão em grupo;

* Quase todo dia uma favela pega fogo Brasil afora;

* Quase todo brasileiro é um super-herói enrustido que se manifesta quase sempre depois das tragédias, quase nunca antes;

* Músicos da noite ganham cachês minguados, sendo geralmente operários da cultura, contratados por empreitada, digo, festa;

* A juventude (15 aos 29 anos) é sinônima de imortalidade. Mas somos nós, os jovens, que mais matamos e morremos no Brasil atualmente;

* Tudo é tanto na sociedade industrial (globalizada/capitalista/massificada): os produtos nas prateleiras; os remédios; as doenças; a demografia; os carros; os acidentes de carro; a poluição; as imagens; o conforto de uns; as tragédias de todos; o prazer; o pranto.

* A vida é frágil a todo instante (para todos).

Tentar sair do sentimentalismo (diante de tantas tragédias)
        A escritora Susan Sontag (1933-2004) publicou em 2003 um livro instigante – “Diante da dor dos outros”. Na obra, Susan elabora muitas perguntas sobre o impacto das imagens (pinturas, fotos, filmes, cenas de TV, vídeos) que enfocam a dor, a guerra, a morte, a destruição - desde as pinturas de Francisco de Goya (1746-1828), às fotos dos campos de concentração nazistas, passando pela Guerra do Vietnã até a queda das Torres Gêmeas em 2001. Uma de suas primeiras questões é: todos reagimos da mesma forma frente a imagens de dor? “Nós” somos contra a violência e a barbárie – mas quantos significados cabem num “nós”? E assim ela filosofa:

“As informações sobre o que se passa longe de casa, chamadas de 'notícias', sublinham conflito e violência – 'Se tem sangue, vira manchete', reza o antigo lema dos jornais populares e dos plantões jornalísticos na tevê – aos quais se reage com compaixão, ou indignação, ou excitação, ou aprovação, à medida que cada desgraça se apresenta”. (Susan Sontag)

“A imagem como choque e a imagem como clichê são dois aspectos da mesma presença.” (Susan Sontag)

Iemanjá, noite e morte
 Nossa Senhora
Vem sobre os mares,
Sobre os mares maiores,
Sobre os mares sem horizontes precisos,
Vem e passa a mão pelo seu dorso de fera,
E acalma-o misteriosamente,
Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!
 (Álvaro de Campos, trecho adaptado dos “Dois excertos de Odes”, 1914)             

Trilha Sonora para o Carnaval
Acadêmicos de Gravataí – De Aldeia dos Anjos a Gravataí: Um Poema de Amor no Coração da Onça Negra (2013): Ficamos na torcida pela escola da MV1 no Carnaval de Porto Alegre.

Neil Young – Psychedelic Pill (2012): Uma pílula (musical) psicodélica pro Carnaval.

Mundo Livre S.A. – O mistério do samba (2000): Videokê do CoV. O samba não é: carioca, baiano, do terreiro, africano, da colina, do salão, da avenida, carnaval, da TV, do quintal, emergente, da escola, fantasia, racional, da cerveja, da mulata, do playboy, liberal, não é chorinho, não é regional, do bicheiro, do malandro, canarinho, verde e rosa, aquarela, bossa nova, silicone, malhação, do Gugu, do Faustão.

Não tem mistério / Como reza / Toda tradição: É tudo uma grande invenção.

Alvinho Lancelotti – Meu bloco de amor (2012): Desfila só pra mim / Samba de dois / Que balança / No ar / Confetes pra gente brincar / Um beijo pra ela pegar / O bloco do amor vai passar.

Tom Zé – Frevo (1972): Resumindo o espírito de Carnaval: Não quero saber de conselho / Esquece / Deixe pra lá / Me arranje / Um pecado / Quente / Pra me consolar / Depois tem o ano inteiro / Pra gente pagar / Vou morrer / Se você não me arranjar um pecadinho.

Rafael Castro e os Monumentais – 10% cristão (2010): Oh! Meu Deus!!!!!

Neil Young – Angry World (2010): Mundo furioso: para o empresário, para o pescador.

Los Hermanos – Todo Carnaval tem seu fim (2001): 
Zé que dorme de pé / Rosas chamadas / Bossa nova usada / Brincar de ser feliz / Pintando o nariz / Nem toda banda tem um tarol...