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quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

#12 QUEM TOCA O SINO?



PLAYLIST DO LIVRO
CONTOS PRA CANTAR DO INVENTOR DO VENTO

#12 QUEM TOCA O SINO?
Desde piá gosto dos sons dos sinos
O sino é um instrumento da Igreja Católica
Mas não sou homem religioso
Minha espiritualidade encontra beleza
Em todas as crenças e em nenhuma
Meu ceticismo não duvida da fé dos outros
Apesar de muitas vezes lamentar
Da fé como mercadoria ou apelação
Fanatismo ou tosquice mesmo
Lembro do
Escritor Isaac Bashevis Singer (1902-1991)
Em suas memórias escritas na língua iídiche
Anotou ele:
“...vida significa livre-arbítrio, e liberdade é Mistério. Se alguém soubesse a verdade, como podia haver liberdade? Se o céu e o paraíso fossem no meio da praça do mercado, todo mundo seria santo”…
*
Os sinos ecoam no vento
E me lembram que música é tempo
O tempo também pode ser música.
Sábado à tarde gosto de ler
Sentado na cama e ouvindo os sinos
Que badalam às 15 na Igreja
Nossa Senhora das Graças
Ali na parada 72
Duas paradas da minha:
Em Gravataí e outras cidades da Grande Porto Alegre
É assim:
O povo se orienta pelas paradas de ônibus
Por isso a burguesia local ironiza
“O povo das paradas”…
Em 2014
Na época de Natal
Os sinos da Igreja da Nossa Senhora do Rosário
É que dobraram mais alto pra mim
Na Avenida Independência de POA
Caminho que desde 1829 (ou antes)
Liga a capital gaúcha
A Antiga Aldeia dos Anjos...
Dobraram alto em mim e na minha mãe
Sentados conversando
Entre árvores bicentenárias
Numa preguiça forçada
No interior do hospital
Santa Casa de Misericórdia que
Desde 1803 está em atividade em POA
Ali surgiu esta canção
Correspondendo ao badalo dos sinos
Do meu canto coração.
Vuuuush
*****
QUEM TOCA O SINO?
(c. a. albani da silva, o inventor do vento)

Hoje quem toca o sino:
é o pagão que sonha acordado
nos santuários, por vales e arroios
lugares profundos e largos
com o vento a seu favor o passado voltou
no amor da noiva

Hoje quem toca o sino:
é São Pedro nos quatro costados do mundo
com mãos de ferro o povo aprende
o trânsito parado da tarde
a engrenagem, a lança, o arado
pra vaca sagrada no campo
sob o sol do poente

Hoje quem toca o sino:
é Martha com o filho do pobre
quem sabe que deus é uno
para o soldado que se vê acuado
ao lado do salgueiro sem sombra
nas montanhas plenas de ovelhas
um dia esquecidas

Hoje quem toca o sino:
é o surdo, o ladrão e o cego
por todos nós desamparados
aquele que julga o tempo
do tempo que apaga e voa
pro bebê chorão e sua inocência
desde ontem perdida

Hoje quem toca o sino:
é Nassíria dos olhos escuros
sobre o terraço
do prédio do islã
na fortaleza com muros
de vidro
onde os lírios trazem
longos poemas
das lutas perdidas e ganhas
pela justa medida
entre o bem
e o
mal.
*Lab de Sons do Vento, 2015.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

#3 É DE MARIA QUE FALO É PRA MARIA QUE CANTO



PLAYLIST DO LIVRO

CONTOS PRA CANTAR DO INVENTOR DO VENTO

#3 É DE MARIA QUE FALO É PRA MARIA QUE CANTO

Após seis meses de uma doença fatal
Parecia que a vida da Mamica
Se resumia a hospital, médico, remédios ineficazes
Mas em vez de escrever uma canção de luto
Escrevi uma canção de luta!
Cantando em cinco minutos
Os 60 anos de existência
Da mulher mais importante para mim
Voltar ao seio da natureza
É sair do nosso atabalhoado tempo histórico
Para entrar na serenidade do tempo infinito
Não há tristeza que seja maior do que a VIDA
Por isso é para Maria que eu canto!
Nesta canção
Somente eu e meu violão Le Goff
(Tenho por hábito botar nome nos meus instrumentos)
No Laboratório de Sons do Vento, Março de 2015.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

#2 DESPETALADA ROSA




Canção que me transbordou
Numa caminhada pela Praia de Baunilha
Em 02/02 de 2011
Dia de Iemanjá dos Navegantes
Caminhava comigo minha Mamica
E tudo começou com a
Rainha da Bateria da Escola de Samba
Que vinha pelo sentido contrário
Cruzou nosso caminho de areia
Conduzida pelo vento Nordeste
Mamica me olhou e pensamos a mesma coisa
“Uma Rainha”
As demais cenas foi só abrir os olhos
Se aclarearam facinho com os óculos da poesia.
Alguém me disse que essa música
Parece descrever a praia no Inverno…
Talvez o Inverno esteja em quem ouça ela
Em mim permanece
A saudade duma coisa saudosa
Nunca mais poderei caminhar pela praia
Com minha Mamica
A não ser quando cantar esta canção.
[…]
O arranjo para esta crônica poética
Ficou entre o Barroco e o Oriental
Com destaque para a viola caipira
Tocada por Mick Oliveira como um sitar indiano
E a tampura indiana que
Sampleamos ao fundo
Gravada no Estúdio LACOS
Entre o 2012 e o 2013, em Caxuxa.
-------
DESPETALADA ROSA
c. a. albani da silva, o inventor do vento

Eu vi a rainha da bateria da escola de samba
E vi o cigano bailando e tocando tambor

Eu vi a criança que fazia castelos na areia
E a alegria estampada no rosto do menino que salvava o seu chinelo do mar

Eu vi um pescador que pescava seus próprios pensamentos
E vi dois amantes idosos lentamente a caminhar

Eu vi o burguês que exibia seus inúteis talentos
E vi o vira-lata sarnento deixando seus rastros na areia

Eu vi a despetalada rosa oferecida à Iemanjá
E vi a garrafa vazia de cerveja jogada na praia
Eu vi conchas brancas que suplicavam teu nome
E vi senhoras discursando sobre homens na mesa do bar

Alcancei acalantos e cigarros ao pobre servo
E vi tristes traves vazias da goleira onde costumávamos brincar
Senti a tua doce presença na brisa que tocou em meus lábios
E me disse que esse mês de janeiro só restava agora em nossos corações
(Do capítulo II – Saudade duma coisa saudosa, pp. 13 e 14)



terça-feira, 8 de março de 2016

Mamica

Mamica, c. de 1974

No Dia das Mulheres, este Inventor de Ventos canta sobre a Maria mais importante de todas!

É de Maria que falo é pra Maria que canto
(C. A. Albani da Silva, o Inventor do Vento)

Se for segunda o bife é à milanesa
Ferve a lentilha que espanta a fome e a tristeza
Foi-se o domingo que começou na Cachoeirinha
Ou lá na barra do Tramandaí
Na tela o Silvio antes de um beijo de boa noite
A casa limpa pra receber a luz do sol
E colorir de artesanato o chão, a mesa
Pano de prato e o banheiro, com certeza
Ainda menina, cabelo ao vento, encaracolado
De campo e mata e de cascatas em Santo Antônio
Os 15 irmãos, o bergamasco com os pais e as tias
Tem pés na sanga e um medo louco de temporal
Desceu do morro pra esse vale cheio de indústrias
Seus olhos verdes viram a luz da noite elétrica
Aos 11 anos deixou a escola pra faxinar
A tantas casas que só a ela coube limpar

É de Maria que falo
É pra Maria que canto

Aos 19 foi operária de bola e latas
Para o azeite e a árvore dos Natais
Chegada a hora, na domingueira da Jovem Guarda
Um cara magro pegou seu braço e a levou pro altar
Corria rápido o mês nove de ´76
A ditadura rolando solta aqui outra vez
E a Maria, recém-casada, peregrinava
Atrás do lar que o manto da Virgem abençoava
Viriam logo os primeiros dias pela COHAB
Hoje incontáveis quanto os verões lá de Baunilha
Plenos de vento, de chocolate e maresia
Secreto amigo e de lambari, as pescarias
O primeiro filho veio no tempo das vacas magras
Isso que o esposo as madrugadas ele varava
Fazendo bombas e geringonças na metalúrgica
Ainda assim curaram a asma do pequenino
Em 09 anos chegava ao mundo o seu caçula
Naquele outono, 22, de utopia
Levá-los todos para o colégio de mãos dadas
É a merenda, feita com esmero, pra criançada
A história vai pro “digodieime”, pro futebol
Pintou o rock e outras formas de fantasia
Com namoradas, na faculdade, era sempre a Maria
A esperar, vigilante, pelo portão
Às vezes braba: fazer dos jovens homens feitos
Só pra sentir falta da infância deles depois
Mas não importa, o cafuné continuará
Nos pés, na alma, sempre que a gente precisar

É de Maria que falo
É pra Maria que canto

Teu amor é a flor do quintal
Tu és a flor do nosso quintal
Não há dor que murche o jardim
Pois o nosso amor não tem mais fim

É de Maria que falo
É pra Maria o meu canto







segunda-feira, 16 de março de 2015

É de Maria que falo é pra Maria que canto

Mamica, Mãe do Inventor do Vento, c. de 1974



Esta é uma postagem extraordinária. Mas não é uma postagem de luto. Esta canção surgiu como uma resposta poética e histórica à impotência e à indignação, ainda durante a luta pela vida e pela saúde. Voltar ao seio da natureza é sair do nosso atabalhoado tempo histórico para entrar na serenidade do tempo infinito. Além do que, não há doença que possa ser maior do que a VIDA. Por isso é pra MARIA que canto!

É de Maria que falo é pra Maria que canto
(C. A. Albani da Silva, o Inventor do Vento)

Se for segunda o bife é à milanesa
Ferve a lentilha que espanta a fome e a tristeza
Foi-se o domingo que começou na Cachoeirinha
Ou lá na barra do Tramandaí
Na tela o Silvio antes de um beijo de boa noite
A casa limpa pra receber a luz do sol
E colorir de artesanato o chão, a mesa
Pano de prato e o banheiro, com certeza
Ainda menina, cabelo ao vento, encaracolado
De campo e mata e de cascatas em Santo Antônio
Os 15 irmãos, o bergamasco com os pais e as tias
Tem pés na sanga e um medo louco de temporal
Desceu do morro pra esse vale cheio de indústrias
Seus olhos verdes viram a luz da noite elétrica
Aos 11 anos deixou a escola pra faxinar
A tantas casas que só a ela coube limpar

É de Maria que falo
É pra Maria que canto

Aos 19 foi operária de bola e latas
Para o azeite e a árvore dos Natais
Chegada a hora, na domingueira da Jovem Guarda
Um cara magro pegou seu braço e a levou pro altar
Corria rápido o mês nove de ´76
A ditadura rolando solta aqui outra vez
E a Maria, recém-casada, peregrinava
Atrás do lar que o manto da Virgem abençoava
Viriam logo os primeiros dias pela COHAB
Hoje incontáveis quanto os verões lá de Baunilha
Plenos de vento, de chocolate e maresia
Secreto amigo e de lambari, as pescarias
O primeiro filho veio no tempo das vacas magras
Isso que o esposo as madrugadas ele varava
Fazendo bombas e geringonças na metalúrgica
Ainda assim curaram a asma do pequenino
Em 09 anos chegava ao mundo o seu caçula
Naquele outono, 22, de utopia
Levá-los todos para o colégio de mãos dadas
É a merenda, feita com esmero, pra criançada
A história vai pro “digodieime”, pro futebol
Pintou o rock e outras formas de fantasia
Com namoradas, na faculdade, era sempre a Maria
A esperar, vigilante, pelo portão
Às vezes braba: fazer dos jovens homens feitos
Só pra sentir falta da infância deles depois
Mas não importa, o cafuné continuará
Nos pés, na alma, sempre que a gente precisar

É de Maria que falo
É pra Maria que canto

Teu amor é a flor do quintal
Tu és a flor do nosso quintal
Não há dor que murche o jardim
Pois o nosso amor não tem mais fim

É de Maria que falo
É pra Maria o meu canto