Do
capítulo XIV do livro "Contos
Pra Cantar do Inventor do Vento" esta canção
que fiz, em 2015, pros felinos e seu olhar do mundo: hábeis bagunçadores de casa,
distantes em seus telhados lunares, miando sem sombra de positivismos ou ordens & pogréissos!
Letra,
música, voz e violão azul: C. A. Albani da Silva, o Inventor do
Vento
Todo
mundo sabe que o litoral Norte do RS tem mar chocolatão e
gelado, muitas algas, vento Nordestão, roseta
nos pés.
Mas
nem todo mundo sabe que ali moram, veraneiam, descansam ou visitam
nossas praias a marmota tuco-tuco, a lagartixa das
dunas, a mãe-d´água (nós é que incomodamos elas nos dias
de água “bonita” e quente, quando elas vêm pra beirinha e
ficamos nos esbarrando nelas e ainda por cima praguejando), o
golfinho pintado, o pinguim-de-magalhães, o lobo-marinho e a baleia
franca, entre tantos outros seres fantásticos.
Na
imensa planície costeira do RS, entre dunas e restingas, lagoas,
ventos e pequenas cidades de pescadores, crianças e
aposentados, rola o encontro das correntes marinhas do Brasil e das
Malvinas: água + calor x frio criando um corredor de vida e
diversidade no Atlântico.
Fiz
esta letrinha no verão de 2016. Foi parar no capítulo XX do livro "Contos Pra Cantar". Gravei no verão de 2017, ao vivo
dentro do mar de Cidrilha, a Praia de Baunilha que é ao sul de Moçambique.
Oh
yeaaaaah com
sal e areia!
NA
PRAIA NÃO TEM SÓ PEIXE
(C.
A. Albani da Silva, o Inventor do Vento)
A
marmota mora logo ali
(naquela
praia):
E
a marmota tem a cor da areia
A
marmota cava túneis na areia
A
marmota toca tuco-tuco toca
Pra
marmota sereia
A
lagartixa mora logo ali
(naquela
praia):
A
lagartixa sobe e desce a duna
A
lagartixa é uma lagartixa das dunas
A
lagartixa é verde feito o pasto
A
lagartixa procura o rabo no biquíni da esposa do sapo
É
que na praia não tem só peixe
Procure
que vais ver
Ou
pergunte pro repuxo,
vento
Norte, corrente Sul
Que
na praia não tem só peixe
O
que irão te dizer?
Lá
na Praia de Baunilha que fica logo ali
A
mãe d´água veraneia logo ali (naquela praia):
A
mãe d´água não gosta de água quente
A
mãe d´água quando braba queima a bunda da gente
A
mãe d´água é mãe de muitos filhos
A
mãe d´água não precisa de um pai d´água pra botar sua vida nos
trilhos
O
golfinho pintado veraneia logo ali (naquela praia):
O
golfinho ajuda com sua calda o salva-vidas
O
golfinho vence o surfista nas corridas
O
golfinho pesca puxa puxa a pesca quando a maré é cheia
É
que na praia não tem só peixe
Procure
que vais ver...
O
pinguim descansa logo ali
(naquela
praia):
O
pinguim já desceu da geladeira
O
pinguim ri do marisco e suas besteiras
O
pinguim sempre toma um picolé
O
pinguim vem lá das Malvinas só pra pegar jacaré
A
baleia franca passeia logo ali (naquela praia):
A
baleia franca sempre diz a verdade
A
baleia franca não tolera maldades
A
baleia franca fica faceira fica feliz
E
expele água salgada, gelada, molhada feito um chafariz
Disse
um abilolado Vidente Xalalá em seu programa na TV pública, pouco
antes de tirarem a TV pública do ar: “Deu pau na minha bola de
cristal! Não vou poder adivinhar bosta nenhuma do ano que virá! Mas
se vocês agarrarem 2016 do avesso e apertarem espremerem os
contracantos do tempo, afagando a memória, vão ver que não teve só
retrocesso político, desgraceira e polêmica neste ano, teve mais
coisa”:
JANEIRO
No
Dia
Primeiro, o Malandro Urubu dormiu em PAZ, depois de tomar o maior
fogo das suas penas. O que demostra,
acertadamente,
que apesar de uma ou duas exceções, que só comprovam a regra,
pacifismo é coisa de bêbado.
FEVEREIRO
Iemanjá
deu de braços com Poseidon e foram pular Carnaval na Praia do
Pinhal. Embora a rainha das águas não seja a senhora do destino
(destino é coisa de Mãe Nana) ela sabia que o pior estava por vir,
então
aproveitou pra extravasar antes. No
mesmo dia, o Picolezeiro da Praia de Baunilha vendeu seu picolé nº
100.001. De brinde ele ofereceu à menina que comprou o geladinho um
mergulho
gratuito no mar. Como
ela já tinha mergulhado naquele dia, contentou-se em chupar o
picolé. O
Picolezeiro pegou jacaré sozinhamente.
MARÇO
Em
Congresso Feminista
no Uruguay que
se estendeu por quase três semanas, Lolita Leine defendeu a tese e
convenceu as congressistas de que Anitta assim
como Joana D´Arc
não
chega
à altura da bailarina Mata Hari nem
da passionária espanhola Dolores Ibárruri,
mesmo
com
outra
guerra
mundial
isso
nunca
acontecerá.
Disfarçado de mulher com
batom e tudo o
Paulo Coelho gostou da ideia e saiu
a
bolar
o seu novo livro sobre
a espiã holandesa; sobre
a
comunista de Espanha, enquanto, nada.
Lolita
Leine iria defender também
a força punk
da
roqueira
Patti Smith, mas ninguém ainda
sabia que ela representaria
o Bob Dylan no Nobel nos
fins de
ano (como
de costume, minha bola de
cristal estava
com tilt em dezembro de 2015...),
daí
que a
Lolita
quietou-se
e deixou o Congresso finalmente
acabar,
já
que
se
alongava demais aquela pensativa reunião
e
muita menina inteligente
precisava
partir resolver outros problemas não menos complicados
do
que o machismo.
ABRIL
Foi
visto o fantasma de Tiradentes sobre as ruínas de Mariana/MG.
Um executivo da Cia Vale do Rio Doce ficou
branco que nem uma vela,
acusou a assombração.
Outro
endoidou e começou a rolar na lama pensando ser o barro mais limpo
que sua maldita consciência suja
de
capitalista sujo
(não há limpos, já antecipo).
Um caboclo que perdeu tudo, pois
até
o rio em que pescava sumiu, disse que após o estouro da barragem é
que o Tiradentes perdeu a cabeça e passou a assombrar os executivos
crédulos (existem
alguns!) da
mineração multinacional.
MAIO
Em
maio, o Moleque do Espaço comemorou 30 anos de vida. Geminiano
encardido, bateu uma dúvida se festejava de noite, que era mais
fresquinho, ou de dia, que os parentes mais velhos acreditavam ser
mais seguro. Incapaz de superar as inseguranças voou pro céu
sideral ter com Cástor & Pólux, as estrelas gêmeas. A confusão
só se fez triplicar. Estão até agora debatendo. Em tempo decidem
algo pra festa de 31 anos.
JUNHO
Houve
uma greve de gnomos de Natal no quintal de roseiras do seu Valdemar.
O Papai Noel acusou Jesus de Nazaré, que teria cooptado a gnomada
para trabalharem por seus evangelhos e mandarem longe o paganismo
consumista do velho Noel entregador de presentes. Jesus negou até a
última. Chamava os gnomos de diabretes: estando impedido pelo Pai de
fazer aliança com esse tipo de gente.
JULHO
Afonsinho
dono da banca de frutas na COHAB colocou o novo preço inflacionado
da maçã miúda, pera pau, mamão papaya, laranja suco, milho que
não é fruta. Do lado das frutas pôs uma placa onde se lia “o
amor é de grátis”.
AGOSTO
O
Cachorro Louco foi à tumba do Júpiter Maçã. Latiu 3x a prece mais
importante de todo o mundo, o Pai Nosso. Adispois arriscou latir
“Beatle George”. O coveiro chorou e os dois saíram juntos coçar
as pulgas.
SETEMBRO
Um
anjo caiu na cabeça da Presidenta Dilma. E disse que lá no céu
também ocorrem golpes de Estado e puxam-se os tapetes celestes,
manifestações de uma mesma luta de classes.
OUTUBRO
Mês
dos paranormais se encontrarem em Praia de Baunilha e entortarem
garfos. A Menina do Colar achou curioso quando a Girafa Elétrica lhe
contou do encontro de gordos que rolava ao lado: pauta deles: como
podem entortar garfos com tanta comida por aí?
NOVEMBRO
Escarafunchando
há 80 anos nas “Raízes do Brasil” o mais famoso livro do
historiador Sérgio Buarque abriu-se
na página 214
e leu-se “Uma superação da doutrina democrática só será
efetivamente possível, entre nós, quando tenha sido vencida a
antítese liberalismo-caudilhismo”. E fechou-se. E quem comentou
foi o taxista Sérgio que simplesmente falou “Bonito! Mas prefiro
poesia”.
DEZEMBRO
Do
canto do olho esquerdo e acima do bigode direito o Cigano reparou nas
formigas andando em fila indiana e se perguntou se elas iriam pra
Índia como um dia ele viera da Romênia. Toda
andança de ida ou de volta, organizada ou bagunçada, começa antes
do primeiro passo. O
servo de há 40 anos no mesmo feudo em Goiás disse ao
Cigano que
a pior condenação é seguir e nunca poder ficar.
Trilha
sonora pra 2017: EDVALDO SANTANA
EDVALDO SANTANA - CONSULTA (1993):
EDVALDO SANTANA - Choro de Outono (2004):
EDVALDO SANTANA - Quem é que não quer ser feliz? (2006):
Direto
das NUVENS:
Nasceu o primeiro livro de histórias
do
Inventor do Vento - CONTOS pra CANTAR!
São
mais de 70 letras de músicas, causos modernistas, poemas
ventosos!
Encomende o seu (Pelo Feicebuquis, Uats ou Email)!
Produção totalmente independente!
Cópias
limitadas!
Clássico
de nascência, o livro “Raízes
do Brasil” de
1936, escrito pelo historiador Sérgio
Buarque de Holanda,
futricou lá no fundo da matéria d´alma brazuca. Entre
outras coisas achou uma certa cordialidade da nossa gente que não
tem a ver com sermos gentis e alegres o tempo inteiro, mas sim
passionais e emotivos em se tratando da vida diária.
Um
desses livros maravilhosos a fazer a cabeça dos brasileiros
dispostos a superar a casa-grande e finalmente, quem sabe, um dia,
abolir todas as escravidões. Segue a última página da obra:
“Se
no terreno político e social os princípios do liberalismo têm sido
uma inútil e onerosa superfetação, não será pela experiência de
outras elaborações engenhosas que nos encontraremos um dia com a
nossa realidade. Poderemos ensaiar a organização de nossa desordem
segundo esquemas sábios e de virtude provada, mas há de restar um
mundo de essências mais íntimas que, esse, permanecerá sempre
inato, irredutível e desdenhoso das invenções humanas. Querer
ignorar esse mundo será renunciar ao nosso próprio ritmo
espontâneo, à lei do fluxo e do refluxo, por um compasso mecânico
e uma harmonia falsa. Já temos visto que o Estado, criatura
espiritual, opõe-se à ordem natural e a transcende. Mas também é
verdade que essa oposição deve resolver-se em um contraponto para
que o quadro social seja coerente consigo. Há uma única economia
possível e superior aos nossos cálculos para compor um todo
perfeito de partes tão antagônicas. O espírito não é força
normativa, salvo onde pode servir à vida social e onde lhe
corresponde. As formas superiores da sociedade devem ser como um
contorno congênito a ela e dela inseparável: emergem continuamente
das suas necessidades específicas e jamais das escolhas caprichosas.
Há, porém, um demônio pérfido e pretensioso, que se ocupa em
obscurecer aos nossos olhos estas verdades singelas. Inspirados por
ele, os homens se veem diversos do que são e criam novas
preferências e repugnâncias. É raro que sejam das boas”.
(Raízes
do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda, 27ª
edição, editora Cia das Letras, 2014)
Em
2016, dois cantadores do Brasil profundo completaram 80 anos de vida:
Tom Zé,
o tropicalista baiano que nos ensina a fugir do óbvio na música;
Rolando Boldrin,
o cantador e contador de causo, autêntico Sr. Brasil!
Nesta
canção do álbum “Estudando o Samba” (1976) Tom Zé
explica a clareza da sua confusão:
TÔ
Tô
bem de baixo pra poder subir
Tô bem de cima pra poder cair
Tô
dividindo pra poder sobrar
Desperdiçando pra poder
faltar
Devagarinho pra poder caber
Bem de leve pra não
perdoar
Tô estudando pra saber ignorar
Eu tô aqui
comendo para vomitar
Eu tô te explicando
Pra te
confundir
Eu tô te confundindo
Pra te esclarecer
Tô
iluminado
Prá poder cegar
Tô ficando cego
Pra poder
guiar
Suavemente pra poder rasgar
Olho fechado pra
te ver melhor
Com alegria pra poder chorar
Desesperado pra
ter paciência
Carinhoso pra poder ferir
Lentamente pra
não atrasar
Atrás da vida pra poder morrer
Eu tô me
despedindo pra poder voltar
Já
nesta canção de 1981, Rolando Boldrin sugere meios de resistir à
Gotham City Tropical, quando ela, vira & mexe, teima em se tornar
a capital do Brasil. Segue a versão original e uma releitura do
Inventor do Vento.
VIDE
VIDA MARVADA
Corre
um boato aqui donde eu moro Que
as mágoa que eu choro são mal ponteadas Que
no capim mascado do meu boi A
baba sempre foi santa e purificada Diz
que eu rumino desde menininho Fraco
e mirradinho a ração da estrada Vou
mastigando o mundo e ruminando E
assim vou tocando essa vida marvada
É
que a viola fala alto no meu peito humano E
toda moda é um remédio pros meus desenganos É
que a viola fala alto no meu peito, mano E
toda mágoa é um mistério fora desse plano Pra
todo aquele que só fala que eu não sei viver Chega
lá em casa pruma visitinha Que
no verso e no reverso da vida inteirinha Há
de encontrar-me no cateretê
Tem
um ditado dito como certo Que
o cavalo esperto não espanta a boiada E
quem refuga o mundo resmungando Passará
berrando essa vida marvada Cumpadi
meu que inveieceu cantando Diz
que ruminando dá pra ser feliz Por
isso eu vagueio ponteando E
assim procurando minha flor-de-liz
Por
fim, parceria de Tom e Rolando pra cantar o apocalipse na “Moda
do Fim do Mundo” (c. de 1985):
Mãe
Nana falou: “Num é assim
um Rolling Stone, mai mininu, tu já inventô bocadinhu de blues desde piá. E
bem que ocê pudia bolá uma pleilista ae no youtúbio pra módi nóis se adiverti um
poko nesses dia tão infame que ocorre”.
Sempre obedecendo aos caprichos de Mãe Nana, escolhi 07
blues numa retrospectiva artesanal, que começa lá na banda Madame Satã, quando
este cantador nem sabia aparar os bigodes, vai até a dupla lunática Barata
Atômica & Formiga Nuclear, chegando aos atualmentes do Cavalgando o Vento
(CoV).
*(Notas por Prof. Linduarte Cantor)
Sukie Jones:
O adolescente deve de ser um primitivo, expressionando-se, por vezes, no
gritedo das suas músicas. Foi assim com a ópera-rock “Pornô Cor de Rosa”, da
banda Madame Satã, em 2002.
Pelos cinco mil
alto-falantes: Garota, rua, uísque e violão: os segredos de um bom blues,
existencialista. 2004.
O blues do cachorro magro:
O anarquismo é a última salva-guarda da utopia. 2004.
Só quem me ama é a minha
mãe: Uma homenagem da banda Madame Satã, Gravataí/RS, em 2004, a
uma das mães do blues: Alberta Hunter
(1895 a 1984).
Vocês vão ter que me aturar:
Existem por aí muitos tricksters:
Hermes no lombo do vento grego; Exu Legba mamando nas tetas da Mãe África; a
Lebre e a aranha Anansi na savana dos leões depois que passa o Saara; o Rei
Macaco voador de nuvens nas montanhas da China antiga; Tanuki, o guaxinim por
dentro da túnica das gueixas japonesas; o Corvo, o Coiote procurados sem
recompensa no velho Oeste pelo gaudério Pedro Malasartes. 2004.
Nana (Blues): Mãe Nana é a que teve 140 filhos e determinou o
destino de cada um deles quando que os ia parindo ao som do blues do samba e do
brega, suas paixões de toda uma vida, bem comprida, aliás. 2011.
História do
Bugio na Selva de Pedra: Registro ao vivoem festival de
cantadores que caminham sobre as águas e rolam no lodo dos
rios Mississipi, Gravatahy e Guayba: Canções que nascem do barro. 2016.
Mãe Nana é a que teve 140 filhos e
determinou o destino de cada um deles quando que os ia parindo ao som do blues
do samba e do brega, suas paixões de toda uma vida, bem comprida, aliás.
Quando Mãe Nana samba, seja em
Angola, na Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo ou Porto Alegre, seu samba é TORTO.
E que ninguém o
"endireite" a bibliadas, verdeamareladas, patadas, privadas
(iniciativas)!
Em Cuba, cantando para o Camarada Fidel, seu samba foi guajira para os novos tempos.
Voltou a entortar quando olhou as "Nuvens do Céu" na Praia de Baunilha, ao sul de Moçambique, e entendeu que as nuvens não têm forma definida, só dependendo do olho do olhador: elas têm todas as formas da imaginação.