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segunda-feira, 10 de maio de 2021

Albani e Mãe Nana

 

Fazer arte nos permite experimentar coisas que jamais viveremos na vida real, no meu caso, a maternidade é uma delas.
No livro OS 140 FILHOS DE MÃE NANA, lançado em 2019, cada página traz o destino, amargo, lírico ou sem graça, dos rebentos dessa mama fabulosa que ficou 1260 meses grávida!
São prosas poéticas que surgiram a partir de uma canção minha sobre Nana, mulher ancestral, que já foi tocada em estilo de blues, brega, samba e chacudum.
No canal ALBANI DA SILVA no YouTube há uma pequena playlist com a leitura de 10 filhos do livro, além da canção.
O livro você encontra na Livraria Cultura ou direto com o autor.
Vuuush












domingo, 12 de maio de 2019

OS 140 FILHOS DE MÃE NANA – parte 3



OS 140 FILHOS DE MÃE NANA – parte 3
MEDISON: Este terá mais dias alegres do que tristes. Somente nos quatro dias de Carnaval do ano de 1986 a coisa vai ficar ruim. Adiante, terá uma vida sem sobressaltos, longa e saudável. Mas sem os lirismos das boas surpresas; sem as poesias de um milagre; sem os dramas que fazem montanha-russa do compasso do nosso coração e outras bárbaras artes que nos marcam a ferro e fogo. Ele quem escolheu morrer de velho, dizendo que morrer de velho é bem mais complicado do que se matar novinho. Os dias do futuro lhe serão, deste jeito: repetições de gestos e sentimentos parecendo que nunca aconteceram antes, mas que há tempos já aconteceram, sim, como naquela olhada para trás que o fará lembrar das laranjeiras lá de casa onde brincava de esconde e esconde com o gato e ainda enchia a pança assim de laranja do céu e de umbigo e o sabor do suco, uma laranjada sem açúcar, lhe terá valido viver uma grande mudança.

FABIANA: Na Roma antiga será Fabiana quem levantará a voz e pedirá a palavra em nome das mulheres contra a escravidão do corpo. Mal sabem os historiadores, mas as arenas eram espetáculos ao ar livre de sexo explícito, escreverá. Sem moralismos, Fabi proclamará também aos quatro ventos e na jangada que leva aos 7 mares que viver sem roupas é o mesmo que usar um véu preto do dedão do pé à ponta do nariz gorduroso. O pornógrafo de Nova Iorque e o aiatolá-bispo-rabino do Irã-México-Israel lhe queimarão na mesma fogueira não sem, antes, a cortejarem e lhe oferecerem joias com ouros e modas íntimas importadas para uma noite de núpcias, tentando fazer de Fabi boa transa e não boa mártir. Ela conhecerá o World Trade Center e Meca, por dentro, mas não aceitará a patifaria desses caudilhos dos sussurros e dos gemidos de fé e prazer.

LEANDRO SIMÃO: Se comprar sapato com cadarço e meia já terá feito muito.

RAIMUNDO: O mutante Raimundo. Entreguei-o bebê de colo como voluntário, pois quem cala consente, em secretas operações militares. Acelerarão seus genes em laboratório e ele crescerá já sem os sisos, com quatro dedos em cada pé, mas com seis dedos em cada mão. Seus pulos terão a propulsão dos gatos. Ele terá um gato de estimação: Thompson. O terceiro olho que alguns monges e sacerdotes hindus já haviam desenvolvido nos últimos 3 milênios ficará permanentemente aberto na testa de Mundinho. Entretanto, não será imortal nem muito inteligente. Mas será muito musculoso e, talvez por isso - os cientistas ainda procuram explicações razoáveis - um tarado impertinente, com suas mãos-bobas de seis dedos cada. Resistirá bem ao álcool, isto é, dizem os biólogos integrantes da equipe que coordenará o projeto, em decorrência do rabo de gambá que lhe despontará na bunda depois dos 06 anos de idade. Perderá o apetite sexual conforme essa cauda crescer, o que vai levar muito tempo. Mesmo assim se negará a fazer a guerra. Por isso, a experiência será considerada um fracasso, aos olhos dos cientistas e militares, assim como, das empresas multinacionais patrocinadoras que me pagarão os direitos de propriedade sobre Mundinho rigorosamente em dia.

MARIA: Predestinada caminhante sem nem nunca sequer ter um burrico ou uma bicicleta: andará sempre de a pé. Vais caminhar a vida inteira sabendo a cada passo adiante, e mesmo a cada passo para trás e pros lados também, que melhor que qualquer chegada o que importa mesmo é o percurso de cada um e de todos nós. Nem sempre é possível desatar a todos os nós. Comprará calçados que os caminhos são muitos e as perdições também: sandálias e chinelas. Mas no verão, na Praia de Baunilha, não tem jeito: os pés nus, calejados de tão sujos de terra destinante à caminhada. A terra é o alimento dos pés. O cansaço será sua desculpa para tirar os pés do chão mas, por pouco tempo, pois cedo, logo no outro dia de manhã, recomeçará as veredas de areia, barro barro, grama & grama, asfalto frio ou quente, cerâmica quebrada ou inteira. Andar assim da pampa aos morros, pelas cidades, por fazendas. Quase sempre, aliás, anda sem saber pra onde vai, mas anda só pra esvaziar a cabeça. A cabeça quando vai cheia pesa e faz doer ainda muito mais os pés.

[...]
Continuamos, com muito orgulho, neste MÊS das MÃES, rendendo homenagens a uma grande amiga: a MÃE NANA. Mesmo sendo freira, Mãe Nana é a que teve 140 filhos e determinou o destino de cada um deles logo que os ia parindo e batizando ao som do blues, do samba e do brega, suas paixões musicais de toda uma vida, bem comprida, aliás. Para não se atrapalhar, a Mãe Nana anotou o destino, pois que maternidade é destino, de cada um dos 140 filhos num caderno de contas que desde 2014 venho digitando. Hoje lhes apresentei mais 05 dos filhos de Nana.

* Qualquer semelhança com a ficção é a mera realidade.
(c. a. albani da silva, o inventor do vento)

P. S.: Pintura por Amanda Greavette, Agarrada no Berço, 2012.

sábado, 11 de maio de 2019

OS 140 FILHOS DE MÃE NANA – parte 2



OS 140 FILHOS DE MÃE NANA – parte 2

DORA: Vai ser criada por um avô, guerrilheiro tupamaro e artista plástico. Flanará pelas águas do Rio da Prata espalhando cheiros bons para a Montevidéu inteira. Seu avô será perseguido por livre pensar e pintar paredes em regimes ditatoriais no Uruguai, na Argentina, no Brasil e ao sul de Moçambique, na Praia de Baunilha. Os olhos glaciais de Dora não serão mais belos do que seu quente coração inquieto por causa da criatividade. Entretanto, não passará de balconista em shopping center antes de ser telefonista de call center, por fim, atriz em sonhos quando as noites mal dormidas vierem. Viajará de ônibus pelas coxilhas que se alargam no Sul do planeta, desde Santa Maria da Boca do Monte até o porto de Buenos Aires pensando em príncipes encantados e desenhando castelos no ar.

OLÍMPIO: Esportista, Olímpio terá saúde de ferro, aço e carnaúba. Nem conhecerá resfriados nem febres nem dores de barriga. Halteres nos pulsos e nos tornozelos como adereços, lutando à grega e lutando boxe, vencendo o imortal Aquiles e Maomé Ali. No basquete se espichará como se de borracha fosse feito, mas não será, será feito de ferro fundido, aço flexível e carnaúba da areia da caatinga. O engraçado é que numa maratona, já regulando na casa dos 100 anos, um raio vai lhe cair na cabeça e depois disso vai expor as pernas torneadas e tostadas da luz elétrica numa revista homoafetiva. Os leitores lhe perguntarão o segredo da beleza e da longevidade e ele achará melhor explicar com outros explicamentos do que a genética da Mãe Nana e os raios bronzeadores: muita salada, muita fruta, carne branca, massagem peniana, gastar meia hora por dia pensando como seria minha vida se não fosse isso e buscando entender que se um dia a gente perde, noutro a gente ganha em qualquer jogo os extremos se anulam e ficamos com a coluna do meio na loteria.

SÉRGIO: Sempre que a mulher de Sérgio sair pra fazer compras e demorar para voltar ele chorará copiosamente com medo de perdê-la. Alguns dias, o povo da Toca da Jiboia vai agradecer por essa choradeira, em meio a longas estiagens nos campos que serão então inundados pelo seu pranto. Mas, por vezes, muitos quererão ver a caveira dele, com ruas e calçadas alagadas e plantações destruídas nos sertões. Indiferente ao seu poder, Sérgio esperará da sala até a cozinha, impacientemente indo e vindo, da cozinha até a sala, com frio, com Sol, com estrelas & Lua, chuva ou seca, por Aurora das Pernas de Fora. Quando ela botar os pés no capacho da casa, onde se lê “Sérgio & Aurora”, será recebida por abraços infinitos e beijinhos nas mãos, ele de joelhos; ela se justificando: “durou 43 dias a greve dos ônibus no centro comercial e eu não queria sujar os pés”.

LISANDRA: Dona Lisandra procurará ser impetuosa. Percorrerá o Brasil demonstrando a si mesma e esperando ouvir de terceiros, demonstrando aos outros, portanto, que ela tem ímpeto! No Sul, no lombo dos cavalos, primeiro os cavalos, depois os cavaleiros, dirão que essa mulher tem fibra. Fibra não sendo ímpeto, no seu dicionário, ensinado por Mãe Nana com lousa negra e giz branco desde os seis aninhos, ela partirá para o Norte. Quase oriental, vai ouvir de um amazônico e meio que seus óculos lentes grossas lhe dão um ar agressivo. E esta será a senha para deixar os banhos de chuva e conversas com os mosquitos até São Paulo, capital dos rifles e da solidão. Nesta cidade não se pode ser impetuoso, devendo-se ser gelatinoso para se sobreviver: concluirá depois de poucos anos. No Nordeste, dividida entre o interior, as capitais e as praias desertas, uma fortaleza baiana, um peixe de rio e dois cocos de coqueiro não repararão em sua chegada e partida. Isso que ela impetuosamente tentou lhes chamar a atenção. É que vivendo em seu tempo, espaço, ritmo e tamanho, eles não precisarão do ímpeto dela, nem de ninguém. Até que bem chegado o dia do Mato Grosso, lá onde os melhores jacarés do pântano lhe chamarão de cantinho e reconhecerão, “tu és, como na TV a cabo, como um vestido vermelho, um desfile de carnaval, coisa bem impetuosa, mulher”!

EDSON: Não me venham com ofensas ou impropérios se fiz e farei de meus filhos trabalhadores, podendo tê-los feito senhores de engenho, executivos, acionistas de qualquer empresa dona do mundo mais do que eu sou dona das minhas crias. Trabalhar é um alento pra quem não nasceu com o cu pra lua, o que é mais do que o dobro do triplo da gente rica e mesquinha que anda por aí. A lua que alumia e protege nossa família é coisa instável de revoluções e ciclos que enchem as marés e os sacos, faz de bobo os amantes e entretém o dragão, morrendo nas mãos do São Jorge das Minas de Capadócia a cada 21 dias. Sendo assim, pequeno Edson, trate de subir nessa carroça tão antiga quanto os cavalos selvagens que o conduzirão e ajude o seu Manuel, outro pobre coitado, vendedor de batatas e melancias. Lave o chão do armazém do tio Neno e cale essa boca, pensando bem antes de reclamar de qualquer coisa. Encha de óleo e azeite de oliva as bombas hidráulicas pra metalúrgica que lhe empregou quando bem poderia ter empregado outro. Na padaria do Castilhos também venderão madeira e ferragens, pois quem não sacode a poeira do dia logo virará pó também. Todo suado, tome um banho e vá deitar, que o sono é o melhor amigo, único, dirá o pessimista, para quem traz a mente vazia e os músculos doídos de tanto caminhar.

[...]
Continuamos, com muito orgulho, neste MÊS das MÃES, rendendo homenagens a uma grande amiga: a MÃE NANA. Mesmo sendo freira, Mãe Nana é a que teve 140 filhos e determinou o destino de cada um deles logo que os ia parindo e batizando ao som do blues, do samba e do brega, suas paixões musicais de toda uma vida, bem comprida, aliás. Para não se atrapalhar, a Mãe Nana anotou o destino, pois que maternidade é destino, de cada um dos 140 filhos num caderno de contas que desde 2014 venho digitando. Hoje lhes apresentei mais 05 dos filhos de Nana.

P. S.: Qualquer semelhança com a ficção é a mera realidade.

(c. a. albani da silva, o inventor do vento)



sexta-feira, 10 de maio de 2019

OS 140 FILHOS DE MÃE NANA – parte 1


OS 140 FILHOS DE MÃE NANA – parte 1

É com muito orgulho que, neste mês das mães, eu rendo homenagens a uma grande amiga: a MÃE NANA. Mesmo sendo freira, Mãe Nana é a que teve 140 filhos e determinou o destino de cada um deles logo que os ia parindo e batizando ao som do blues, do samba e do brega, suas paixões musicais de toda uma vida, bem comprida, aliás. Para não se atrapalhar, a Mãe Nana anotou o destino, pois que maternidade é destino, de cada um dos 140 filhos num caderno de contas que desde 2014 venho digitando. Hoje lhes apresento 05 dos filhos de Nana:


AMANDA: Para Amanda nunca haverá um Amado. Mas cedo deitará na cama de muitos Armandos. Em dias de chuva, vai sentir saudade de armações que ajudou a tramar contra velhos desafetos. Em dias de sol, vai chorar, esbravejando por armações que aprontarão contra ela, sem o seu consentimento: por quê? Pra que isso? Logo eu? Todos os Armandos de sua vida serão um só e o mesmo amor fracassado. E como quem vive em amor fracassado, Amanda nunca buscará outra coisa que lhe preencha a vida que não seja o próprio amor bem-sucedido.

DOUGLAS: Quando entrar naquele bar e pedir uma cerveja, reconhecerei o rosto de Douglas, meu filho, no garçom alto e magro de bandeja de prata na mão. Predestinado a servir, trará voando frango a passarinho e a conta, com um pedido de gorjeta. Filho de pai garçom, que amei num motel azul, terá todo o meu respeito como equilibrista de copos e pratos, talheres para bifes na chapa. Fora isso, será um estranho para esta Mãe de tantos filhos e destinos quanto uma rodoviária. E dele nem mesmo me lembrarei quando nos pecharmos na parada de ônibus, na fila do açougue ou mesmo na minha festa de 99 anos, em maio.

JEFERSON: Muitos filhos Jeferson fará, quase como a sua Mãe Nana, mesmo não tendo visões ou profecias sobre eles. Será fiel a sua pretinha esposa como os santos o são para o Cristo. Mas, ao contrário da Mãe Nana, será pai dedicado e carinhoso, empenhado em extirpar cada remela de cada um dos seus pimpolhos que no seu ninho as cascas do ovo quebrarão. Sim, todos jantarão omeletes feitos por Jeferson com muito gosto.

MALAQUIAS: Mal não queiras a ninguém, Malaquias, queiras maravilhas, Malaca, anjo dos meus dias. Todo dia, quereis comer ervilhas e brioches de padarias. O ruim não te quererias quem soubesse que és anjo todo o dia, Malaca-Malaquias. Tu que nunca vais querer ler uma linha sequer da bem-querida Bíblia das santas livrarias. As letras do Livro Sagrado são muito miudinhas e nunca eu quisera te levar ao oftalmo nem quisera eu gastar o meu pobre salário de Mãe Nana-solteira em qualquer ótica que é também relojoaria. Daí o teu famoso mau-olhado que nunca, nunca que ele sararia.

PASQUAL: Será um homem de papelão: afeiçoado a si mesmo, distante da humanidade. Pobretão de espírito, daí que, na proporção inversa, rico de negócios. Sua alegria será reclamar da vida penosa e dos custos que se tem por ser o 1º dos homens. Elástico e vil, costuma ser o 1º dos homens. Os primeiros deveriam ser os últimos, sem exceção, incluindo os meus nanofilhos. Pasqual nunca está no topo da montanha, mas sempre está no alto das torres de marfim. Homem de paz aos olhos de ingênuos, que também são os desatentos. Cúmplice dos guardas que, com ele por perto, têm argumentos para matar, trazendo a sensação de segurança para Pasqual e seu umbigo, em geral, inseguro e desconfiado.

P. S.: Qualquer semelhança com a ficção é a mera realidade. 
(c. a. albani da silva, o inventor do vento)


quinta-feira, 9 de maio de 2013

Dia das Mães


Michelangelo, Pietà, 1498-1499


Dia das Mães

Já faz tempo, lá por 2001, Christopher Hitchens (1949-2011) foi convidado pelo Vaticano para fazer o papel de “advogado do Diabo” no processo de canonização da Madre Teresa de Calcutá (1910-1997). Entre os muitos argumentos apresentados por Hitchens em resposta às perguntas dos padres, um dos mais interessantes, contrário à canonização da missionária albanesa que fez fama na Índia: “Ela (Madre Teresa) se opunha ferrenhamente à única política que já conseguiu reduzir a pobreza em qualquer país – ou seja, o fortalecimento das mulheres e seu controle sobre a própria fertilidade”. Caminhavam os dois, Hitchens, o repórter, e a Madre, pelas ruas de Calcutá quando a freira expôs seus pensamentos ao jornalista inglês, conforme publicado no artigo “O diabo e madre Teresa” do livro “Amor, Pobreza e Guerra” (2004). Em 2003, Madre Teresa foi beatificada, estágio anterior à canonização. 
(Albani da Silva, 09.05.2012, reeditado em 09.05.2013)

Chico César – Mama África (2001):  

 O Rappa – Me deixa (2007): 

Mães-Corujas:

IEMANJÁ: Ela é vaidosa. Gosta de frutas, água-ardente e rosas brancas. Seu manto é AZUL. Governa os mares. Protetora dos Navegantes. Navegar é preciso. Viver não é preciso. No dia 02 de fevereiro, tambores que chamam Janaína. E junto todas as sereias. Sereia não tem canela. Esta loa impressionista virou feriado nacional. E lá vai a procissão... 


Nossa Senhora Aparecida: A irmã de Iemanjá virou padroeira do Brasil em 1930. Mas foi em 1717 que sua estátua negra apareceu a pescadores do rio Paraíba. Não são apenas os caipiras e os caiporas os devotos de Cida, Nossa Senhora.

ANA NÉRY (1814-1880): Viúva que foi lutar na Guerra do Paraguai (1865-1870) ao lado dos filhos soldados. Voluntária da pátria, mãe, madrinha da enfermagem. Cuidava das feridas feitas pelas pistolas assim como Cida cuida das feridas espirituais dos brasileiros. 
(Albani da Silva, 08.03.2012, reeditado em 09.05.2013)


O Rappa – Minha alma (a paz que eu não quero) [1999]: 


O Rappa – Brixton, Bronx ou Baixada (2005):  

Pai e Mãe
J.M.G. Le Clézio (1940) começa seu livro “O Africano” (2004) assim:
“Todo ser humano é um resultado de pai e mãe. Pode-se não reconhecê-los, não amá-los, pode-se duvidar deles. Mas eles aí estão: seu rosto, suas atitudes, suas maneiras e manias, suas ilusões e esperanças, a forma de suas mãos e de seus dedos do pé, a cor dos olhos e dos cabelos, seu modo de falar, suas ideias, provavelmente a idade de sua morte, tudo isso passou para nós”.

Concepção e Nascimento
É Le Clézio quem invoca a Mãe África:
“Os africanos costumam dizer que não é do dia em que saem do ventre materno que as pessoas nascem, mas sim do lugar e do instante em que elas são concebidas”.

O Rappa – Mar de Gente (2004): 

O Rappa – Súplica Cearense (2008): Ainda em busca de Canudos!

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Almeida Jr., O Violeiro, 1899
Tristezas do Jeca
           Nos anos 1940 o Brasil começou a deixar de ser o país do café – apesar de ainda o ser até hoje (?!?). É que a crise de 1929 e a II Guerra Mundial (1939-1945) fizeram com que o presidente Getúlio Vargas (1882-1954) começasse um processo chamado de Industrialização por Substituição de Importações, que se resumia em produzir aqui um pouco dos produtos que comprávamos fora, no mesmo momento em que os países industrializados europeus paravam de tomar nosso café devido à guerra e outros entreveros.
Uma primeira e importante leva de trabalhadores rurais saiu dos sertões brasileiros então e foi ganhar a vida nos centros urbanos – em especial em São Paulo e arredores. João Salvador Pérez e José Pérez, ou melhor, Tonico e Tinoco, foram um desses caipiras que debandaram. O sonho deles? Bem atual: virarem cantores sertanejos. E viraram. A “Dupla Coração do Brasil” foi a caçula dessas duplas que levaram as modas de viola sertanejas para o rádio nos anos 1940 e 1950 – entre eles havia também João Pacífico, Alvarenga e Ranchinho, Pena Branca e Xavantinho, Cacique e Pajé, Tião Carreiro e Pardinho, Cascatinha e Inhana e o padrinho de todos eles, ou quase, o Capitão Furtado, que batizou Tonico de Tonico e Tinoco de Tinoco.
Em 1945 gravaram o primeiro disco; e em 1947, regravaram uma toada caipira de Angelino de Oliveira (1888-1964) dos anos 1920 – “Tristezas do Jeca”. Tocando em circos, quermesses e programas de rádio, Tonico e Tinoco venderam mais de 50 milhões de discos até o fim da dupla em 1994, quando Tonico faleceu. Foi também em 1947 que estrearam na Rádio Nacional o programa “Na beira da tuia” que durou até os anos 1970 quando o rock, encabeçado pelo pessoal da Jovem Guarda, começou a ganhar a preferência dos produtores e ouvintes. Não à toa as duplas “sertanejas” que vieram depois, rapidinho, acrescentaram guitarras elétricas às suas modas, catiras e rancheiras, ficando cada vez mais pop-rock.
De acordo com a escritora Rosa Nepomuceno, em seu “Música Caipira: da roça ao rodeio” (1999), foi em 1930 que Tonico e Tinoco começaram a tocar mundo afora, cantando modinhas assim:
            A muié pra se casá
       É preciso escoiê
       Livrá dos armofadinha
       Que anda no ginguelê.
     Seriam, hoje em dia, “armofadinhas que andam no ginguelê” os “asteróides da paixão”, os “ai, ai, ui, uis da pegação”, assim como “tchu-tchás” e seus correlatos? (Albani da Silva, 08.05.2012)

Tonico e Tinoco – Tristezas do Jeca (1973):

Tonico e Tinoco – O rei do gado (1973): 

Sabiás do sertão
Mas a minha dupla caipira predileta é Cascatinha e Inhana, aquele que matava aula pra tomar banho de cascata; e a Sinhá Ana, aquela que abreviando vira Inhana! Não tem jeito:

Cascatinha e Inhana – O meu primeiro amor (1973):

Cascatinha e Inhana – Índia (1973): 

TOADA CAIPIRA INTERGALÁCTICA
Em 1969, foi a vez dos Mutantes gravarem a sua toada caipira (intergaláctica), escrita por Tom Zé (1936).

Mutantes – 2001 (Tom Zé, 1969): 
E por falar em Tom Zé o rapaz decidiu opinar em nossa enquete sobre amor e sinceridade:
Tom Zé – O amor é um rock (2007): 
O poder da ficção
Poderia falar de um reality show / De Guerra nas Estrelas / Das novelas da TV / Da Publicidade e Propaganda / Do mercado financeiro / História de pescador / Mas falo mesmo da última notícia / Um furo jornalístico / Para / Demonstrar / O que é / O poder / Da / Ficção / Cansada das arengas / Entre a bancada evangélica / De um lado / E os ateus / De outro / A presidenta Dilma mandou / O Banco Central / Obedeceu / Nosso Real / Agora já não / Mais / Louva / A Deus / Agora / É / Lula seja louvado / Nas notas de 2, 5, 10, 20, 50, 100 / Teve / Deputado / Que se indignou / Não / Não foi o / Tiririca / Não. (Albani da Silva, 08.05.2012)
*Para mais informações sobre as novas notas do Real veja e se indigne também aqui e ali: 

Ali Babá e os 40 ladrões
Não estranha / Que / Esse / Mesmo / Congresso / Que / Boicotou o III Plano Nacional de Direitos Humanos / Em 2010 / Encabeçado pelas bancadas reacionárias / de plantão / Ou seja / Ruralistas, “evangélicos”, colaboradores da grande mídia etc / Também / Derrubou / Em 2011 / O kit escolar Anti-Homofobia / E sabotam também / Há tempos / O marco regulatório / da radiodifusão / Assim como a Lei Complementar / que criminaliza / a / Homofobia (PL 122) / Não espanta / Igualmente / Que esse mesmo / Congresso Nacional / Em que Deputado / Se Indigna / Com as “novas” cédulas de Real / Seja / O Congresso que votou / Com ampla maioria / o Novo Código Florestal / O Código que manda pro espaço / As reservas legais e áreas de preservação permanente / A responsabilidade / Por parte dos fazendeiros / Com as matas nativas / E / Em nome do Agronegócio / Sua soja seus dólares e que tais / Permite o / corte / da mata ciliar / do topo de morros / entre outros / itens / É / Esse mesmo / Congresso / Eleito / Por / Nós / E nosso CALDO DE CULTURA FASCISTA / que / Por ora / Elabora / O Novo Código Penal / Brasileiro / Conforme / Lembra / O Profeta Miquéias / E a profetisa Carina / Já ameaçando / Descriminalizar / Quem tortura / Animais / E quem devasta / O meio ambiente / Lembremos da indústria automobilística, dos pesticidas agrícolas e outros senões / Não estranha / Mas revolta / E entristece / Se o Novo Código Penal / Vir a ter a cara / do Datena / do Mota / do Ratynho / do Capitão Nascimento / Pobre de nós – apenas ladrões de galinhas...
*Nota do MST sobre o “Novo Código Florestal”: Em defesa da preservação ambiental
*Nota do movimento “Crueldade Nunca Mais” sobre o “Novo Código Penal”, atualmente em discussão no Senado, e as possíveis mudanças quanto aos maus-tratos a animais e o encampamento da Lei de Crimes Ambientais pelo Código: Crueldade Nunca Mais

Raul Seixas – Abre-te, sésamo (1980): 
Dia das Mães
Já faz tempo, lá por 2001, Christopher Hitchens (1949-2011) foi convidado pelo Vaticano para fazer o papel de “advogado do Diabo” no processo de canonização da Madre Teresa de Calcutá (1910-1997). Entre muitos outros argumentos apresentados por Hitchens em resposta às perguntas dos padres, um desses argumentos, bem interessante, contrário à canonização da missionária albanesa que fez fama na Índia: “Ela (Madre Teresa) se opunha ferrenhamente à única política que já conseguiu reduzir a pobreza em qualquer país – ou seja, o fortalecimento das mulheres e seu controle sobre a própria fertilidade”. Caminhavam os dois, Hitchens, o repórter, e a Madre, pelas ruas de Calcutá quando a freira expôs seus pensamentos ao jornalista inglês, conforme publicado no artigo “O diabo e madre Teresa” do livro “Amor, Pobreza e Guerra” (2004). Em 2003, Madre Teresa foi beatificada, estágio anterior à canonização. (Albani da Silva, 09.05.2012)

Simpatizantes do ganham asas...
  A “autêntica” juventude
            Você já parou para pensar em como nós, jovens, mudamos de um ano para o outro? E depois de se passarem 3 anos? É impossível não notar! Tudo é “ultrapassado” para nós, estamos sempre inovando ou querendo inovar. Mas será que isso quer dizer que somos autênticos?
                A juventude de hoje está muito ligada à indústria cultural. Nós, jovens, somos altamente influenciados por ela, e ao seguirmos seu padrão, achamos que somos os “maiorais”, que somos “autênticos”. Mas autêntico, na minha opinião, é aquele jovem que age, decide e opina por si próprio, levando em conta o que pensa e o que está certo.
                Nós, jovens, somos o futuro, e, por isso, devemos nos conscientizar. Devemos deixar de lado a imagem que querem da gente (entenda-se, a mídia POP e a indústria da cultura) e nos mostrar do jeito que somos. E o mais importante é que devemos fazer a diferença.
                É muito difícil ser jovem atualmente, e isso é compreensível. O mundo está cada vez mais violento, problemático e indiferente. E não podemos nos acostumar com isso, não é o certo, mas, infelizmente, é o que acontece. E a juventude é o maior fator possível que pode mudar essa realidade ruim, mas acomodadora.
                 Abra os olhos e viva essa sua juventude. Seja autêntico, aja e transforme. Não se acostume com MIGALHAS. Não se deixe influenciar, pois quando se tornar adulto e um verdadeiro “ultrapassado”, vai sentir falta do “poder” que um dia já teve. (Angélica Andrade Reis – Estudante de 8ª série da EMEF Alberto Pasqualini Gravataí/RS, 08.05.2012)

CAVALGUEM o VENTO, CAVALGUEM o VENTO – Não há nada mais rebelde do que ele
Leitores e simpatizantes,
façam como a estudante Angélica Reis e enviem seus escritos, poemas, contos, crônicas, sugestões de assuntos, vídeos e músicas para o CoV – dentro do possível, estaremos publicando-os. Construir um Círculo de Leitores é construir um Círculo de Escritores.
Escrever e ler para que mesmo? Nas palavras de Zygmunt Bauman (1925), em seu “Comunidade: a busca por segurança no mundo atual” (1998): “E no entanto — como colocou Cornelius Castoriadis — o problema da condição contemporânea de nossa civilização moderna é que ela parou de questionar-se. Não formular certas questões é extremamente perigoso, mais do que deixar de responder às questões que já figuram na agenda oficial; ao passo que responder o tipo errado de questões com freqüência ajuda a desviar os olhos das questões realmente importantes. O preço do silêncio é pago na dura moeda corrente do sofrimento humano. Fazer as perguntas certas constitui, afinal, toda a diferença entre sina e destino, entre andar à deriva e viajar. Questionar as premissas supostamente inquestionáveis do nosso modo de vida é provavelmente o serviço mais urgente que devemos prestar aos nossos companheiros humanos e a nós mesmos”. (Albani da Silva, 10.05.2012)