quinta-feira, 16 de maio de 2019

#42 ENTRE o GOLPE e a REVOLUÇÃO



Em 2016
Quando muitos esqueletos verdeamarelos
Começavam a sair dos armários
Fui com Jujuba
Num lindo ato no Largo Zumbi dos Palmares
Em que a cultura de Porto Alegre/RS
Alertava o tanto
De ratos, morcegos e baratas que
Vinham por detrás do golpe moderninho
Desses esqueletos
Fantasiados de impeachment contra
A primeira mulher a presidir o Brasil
Quando paramos na Cidade Baixa
Para o café das 16h
Uma singela fotografia de Jujuba
Com seus óculos e sua xícara
Fez me soprar o vento desta canção:
ENTRE o GOLPE e a REVOLUÇÃO.
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ENTRE O GOLPE E A REVOLUÇÃO
(c. a. albani da silva, o inventor do vento)

Todo o café já bebeu
Todas as flores colheu
E o óculos de sol já não está mais no rosto
A essa moça o que foi que lhe aconteceu?

No preguiçoso intervalo entre o golpe e a revolução
Suas caravelas de papel
Alcançaram a rebentação

Ela sabia cada vez mais
A mãe costurando lhe trazia a paz
De tempos em tempos uma boa notícia
Ainda que a verdade não fosse bem assim

Todo o café já bebeu
Todas as flores colheu
E o óculos de sol já não está mais no rosto
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Na flauta, Mestre Antônio
Na batera, Alemão
Tudo no Lab de Sons do Vento, 2018.
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Playlist do Livro
Contos Pra Cantar do Inventor do Vento
#42

quarta-feira, 15 de maio de 2019

UMA GREVE de ESTUDANTES



UMA GREVE de ESTUDANTES*
* Conto extraído da bola de cristal do Vidente Xalalá, aquela que parou de funcionar há muito tempo porque deu tilt

Em fevereiro de 2011, na Praça Tahrir, Egito, Mahmed, 22 anos, conversava com o jornalista inglês Chris Orwell, 70 anos, que viveu na Argélia durante a guerra de descolonização contra o Império francês, em 1962, e participara também da rebelião jovem que sacudiu Paris e a França a partir das escolas e universidades em Maio de 1968.
            [...] “Mahmed, os jovens franceses tomaram as ruas, prédios públicos, fábricas, praças a partir das universidades - Nanterre, Sorbonne, do bairro que era nosso reduto, o Quartier Latin: isso foi de uma ousadia inédita em meio ao conformismo da sociedade de consumo. E quando as centrais sindicais declararam greve geral, de 13 a 30 maio de 68, com cerca de 10 milhões de operários cruzando os braços, o presidente Charles De Gaulle, herói das guerras mundiais, e a elite francesa estremeceram. Metade do país ficou à espera da revolução, de alguma revolução; a outra metade (que depois também sairia às ruas aos milhares e elegeria um novo Congresso amplamente conservador) ficou assustada, desconfiada de tudo. Mas foi somente com a greve geral da classe trabalhadora que passamos de um levante essencialmente  simbólico e espontâneo, nascido da insatisfação universitária e atuando como um desabafo coletivo, para afetarmos diretamente a economia, ameaçando assim os privilegiados”.
               Enquanto Orwell fazia seu relato, a Praça Tahrir inteira cantava acerca da primavera, daquela, a Primavera Árabe, e de outras, passadas e futuras. A primavera não é apenas uma estação, mas um estado de espírito. Ao som de suas próprias palmas, 100, 120 ou 1120 rapazes e moças entoavam uma prece a Mohamed Bouazizi, 27 anos, que tocou fogo no próprio corpo protestando contra o desemprego, a inflação, a falta de perspectivas, na Tunísia, em 2011. Começava assim a rebelião no norte africano e no Oriente Médio que derrubou velhas ditaduras.
            [...] “Em momentos como o que vivemos agora, Chris, lhe pergunto: optamos pelo realismo ou pelo romantismo”?
            Evitando respostas fáceis, Chris O. entregou a Mahmed um velho bloco de notas seu, já bastante amarelado. Na capa, um título: “Anotações de 1968”; no miolo, pensamentos manuscritos acompanhados de comentários entre parênteses...

Minhas leituras das leituras de Max Beer (1864-1943)

Autoridades de Jerusalém [...], os abrigos em que vocês confiam não são seguros; eles serão destruídos por chuvas de pedra, serão arrasados por trombas-d´água”.
Isaías, capítulo 28, versículo 17. (A rebeldia em estado bruto)

Há uma desvantagem adicional à propriedade comum: quanto maior o número de proprietários, menor o respeito à propriedade. As gentes são muito mais cuidadosas com suas próprias posses do que com os bens comunais; exercitam o cuidado com a propriedade pública apenas quando isso as afeta de maneira pessoal”.
Aristóteles, Política, Parte II. (Sempre discordei desse cara, tipicamente de direita).

Porque ele (o Pai) faz com que o sol brilhe sobre os bons e sobre os maus e dá chuvas tanto para os que fazem o bem como para os que fazem o mal”.
Sermão da MontanhaJesus segundo Mateus, capítulo 5, versículo 46.(Deus, ainda irão longe as injustiças então? Há que se garantir ao menos o livre-arbítrio).

A História é uma disciplina largamente cultivada entre as nações e raças. É avidamente procurada. O homem da rua e o povo vulgar aspiram a conhecê-la. Os reis e os chefes disputam-na”.
Averróis (Ao falar das lutas sociais na Idade Média, Max Beer enfocou os heréticos cátaros, mas preferi beber em outra fonte medieval: a sabedoria muçulmana).

Foi Utopus (o mesmo que rebatizou a ilha de Abraxas como Utopia) que elevou homens ignorantes e rústicos a um grau de cultura e civilização que nenhum outro povo parece ter alcançado atualmente”.
Tomás Morus, A Utopia(A esperança de que a democracia se aprende e se ensina).

Empunharam, à guisa de bandeira, a trouxa de mendigo do proletário, para conclamar o povo à sua volta. Mas todas as vezes que este dispunha-se a segui-las, divisava-lhes nas costas os velhos brasões feudais e então se dispersava com gargalhadas insolentes”.
Marx EngelsManifesto Comunista de 1848 (Cumprem, a imprensa, a polícia e os políticos demagogos, atualmente, o papel que cabia aos aristocratas no século 19?).
(c. a. albani da silva, o inventor do vento)

P. S.: Ilustração por Antonio Manuel, 1968.

OS 140 FILHOS DE MÃE NANA – parte 5



Dedico a parte 5 do meu livro “OS 140 FILHOS de MÃE NANA”, que eu vou postando como a um folhetim virtual, a duas pessoas muito queridas que esta semana me surpreenderam com presentes: a excelente aluna Cila Carvalho que me deu A BORBOLETA AMARELA, do tremendo cronista Rubem Braga, e eu lhe retribui com o meu livro A MENINA do COLAR e a GIRAFA ELÉTRICA; e a Professora Taís WB, companheira de greves e outras humanidades que me deu o livro de GUSTAVO BEHR: Bairro Alto, Cidade Baixa. O cara manda ver em sua guitarra e em sua escrita lá em Lisboa e ainda encontra túneis entre Portugal e Porto Alegre. Lhes devo presentes ultramarinos agora. O vício da leitura tem dessas coisas maravilhosas: é uma bola de neve, ou melhor, de papel. Mas como Mãe Nana é muito ciumenta, deixo o leitor logo com ela, apresentando mais 05 de seus filhinhos, antes que ela me encha de cascudos fictícios:

OS 140 FILHOS DE MÃE NANA – parte 5

GONÇALO: Demorarei muito pra escolher o nome deste meu filho. Começarei por Anderson, mas me agradará mais Peterson. Só que este nome, por algum motivo, talvez a sonoridade, não sei, me fará lembrar de Patrício ou Patrick, nomes que eu detestarei. Seu batismo, por essa e por outras, ocorrerá na pia de um banheiro de rodoviária. O escrivão que vai datilografar a sua certidão de nascimento me dirá: “Olha, Sinhá Nana, escolher nome de filho é sempre um problema. Tenho 04, e um quinto está a caminho, e deixo sempre pra minha mulher essa incumbência. Sempre existiu outro alguém antes que fez bom ou mau uso desse nome. E daí pra saber do bem e do mal já é uma trabalheira dos diabos”.
Ficarei com Gonçalo, que é o nome do meu avô mais legal e de um santo português.

MAICON: Aos 17 anos vai embarcar no porto de Santos, já que o dos Orixás estará fechado para reformas e o mar o levará ao encontro daquilo que a terra não lhe pode dar: botas de couro espanhol. Um pé de sua tão sonhada bota dará a Mãe Nana, o outro pé da bota dará a uma amante, não sei se na bunda de uma delas ou das duas. Maicon vestirá o pala de um índio aimará e meias usadas de um índio quéchua que não sentia frio nos pés; um tigre por inteiro vestirá por dentro. Na marinha mercante os negócios serão sempre pacíficos no Pacífico e atlânticos no Atlântico. Por isso lhe direi que os fuzileiros navais, estes, sim, entram em guerra com merlins, peixes-rei, sereias e caranguejos. Moreno de quatro ventos nas quatro faces da cara, com sol e sal lhe temperando o espírito até o naufrágio chegar, este será o belo Maicon. Partiu somente porque fiz questão de lhe dizer que os tubarões estavam famintos e chamavam por ele sem mais demora.

SARAH: Sempre acima do peso, Sarah não se entenderá com as balanças nem com seu ponto de equilíbrio. Sempre quando contrariada, já adulta, mãe de menina grande, diplomada na escola da vida e outras universidades, vai sapatear, chorar e soluçar sempre afirmando que os seus percalços e problemas é que são dignos de dó. Ouvintes rirão, incrédulos, ou mais sabidos na própria carne de lambadas e cagadas realmente grandes; ouvintes terão pena e destinarão lenços para seu amparo. Veja você mesmo se a sua filha for embora de casa muito cedo e se isso lhe porá de joelhos, sendo Sarah você. São poucas as linhas do tempo e do destino, e o novelo de quase todos os filhos de Nana se enrola e desenrola no tricô dessa manta que teima em não ficar pronta enquanto sigo parindo e fazendo amor. Bem antes de achar um homem que preste, vai conversar com orixás e bruxas nas matas, fantasmas nas casas mal e bem assombradas que lhe ensinarão que a piedade e a compaixão advirão dos afoitos e inexperientes, grosso modo. Por falar demais dará com a língua nos dentes e com os dentes no céu da boca o que provocará mordidas e arranhões em suas nuvens. Ao fim e ao cabo, deitará com orgulho de si mesma: não tendo engolido tantos sapos quanto algumas amigas silenciosas e tendo ajudado a muitas gentes em horas difíceis.

FRANCINE: O dom de Fran será petrificar os namorados. Alguns dirão que por efeito de seus olhos verdes de Medusa, outros, mais safados, que pela bundinha petulante de arrebitada, mas, na verdade, por obra e graça dessa madrinha de destinos que é a Mãe Nana. Os pretendentes virarão belas estátuas e nelas os colibris beberão água com açúcar preparada por Fran, nua ao acordar, antes do banho da purificação para deixar ainda mais alva a pele na banheira plena de sais e rosas com desdém.

TAÍS: No grande e luxuoso Hotel das Dores, Taís limpará a mesa comprida do salão executivo e nunca sentará à cabeça dela. Enxugará centenas de pratos por dia, varrerá o chão por gosto, pois o chão não é lugar de cuspir. Nos arrabaldes do fim do mundo ficará sua casa, limpa e cheirosa. Enquanto os 05 filhos pedem mamá, dedeira e bicos de tetas e bicos de borrachas ela limpa o mundo. Entretanto, o filho do grande fazendeiro William, num dia triste, rachará a cabeça de Taís, sem mais nem menos. Antes ele ainda passará a mão na bunda dela. E, logo em seguida, o jovem burguês vai achatar a cabeça da faxineira com uma barra de ferro e muita brutalidade. Pegará uma sentença de 06 meses de reclusão. O juiz era amigo de longa data e comprava o seu fumo das plantações de William, o grande fazendeiro.

[...]
Neste MÊS das MÃES, rendo homenagens a uma grande amiga: a MÃE NANA. Mesmo sendo freira, Mãe Nana é a que teve 140 filhos e determinou o destino de cada um deles logo que os ia parindo e batizando ao som do blues, do samba e do brega, suas paixões musicais de toda uma vida, bem comprida, aliás. Para não se atrapalhar, a Mãe Nana anotou o destino, pois que maternidade é destino, de cada um dos 140 filhos num caderno de contas que desde 2014 venho digitando.
* Qualquer semelhança com a ficção é a mera realidade.
(c. a. albani da silva, o inventor do vento)


terça-feira, 14 de maio de 2019

OS 140 FILHOS DE MÃE NANA – parte 4



OS 140 FILHOS DE MÃE NANA – parte 4

ARNALDO: Meu filho, Arnaldo, será poeta. Porque ao menos um desta família de lua terá que ser artista pra deixar a vida menos medíocre ou mais grandiosamente incompreensível. Daí já se percebe que seu destino não será fácil nem vultoso. Poemas surgirão e ficarão pelos bares, vendo o jogo do Grêmio, esquecidos. No balcão da farmácia onde vai trabalhar por 3 décadas e meia, deixará poemas manuscritos em notas fiscais. Quando se aposentar, sentado no quintal da frente, diante do velho fícus plantado por seu pai, comporá cantos a canivete. Num galho desse fícus alguém lerá uma linda quadrinha, que somente o fiscal do INSS lera antes:

Dia de ser laureado pelo patrão
O patrão celeste que é quem diz da vida da gente o sim e o não
Nenhum banqueiro, industrial ou fazendeiro
Ficarei velho, pobre, poeta sempre faceiro

EVELYN: A noite será para sonhar com um longo corredor estreito com árabes correndo de atrás. Quando chegar diante a uma alta grade de madeira, ali escreverá, numa folha de caderno desdobrada desde a buchinha um lamento: por que esses moços árabes correm atrás de mim e me perguntam coisas numa língua que eu não entendo? E ainda este desabafo: pior do que ter estranhos lhe perseguindo é não ter ninguém. Um sonhólogo experiente que, antes desse sonho de Evelyn decifrara outros 140 sonhos, afirmará que tudo não passa do medo do novo. E que sonhar melhor é questão de treinamento. Como um exercício de corrida de revezamento: a cada sonho bom que entra na cachola outros ruins se vão. Ainda que nada disso seja muito científico.

LÚCIA: Lúcia cuide de passarinhos feridos. Bem-te-vis, canários e sabiás em especial. Trinca-ferro vai ser mais resistente e de tão teimoso não vai assim ao médico ou ao xamã por qualquer coisinha, exceto se for ameaça de ferrugem. Prepare remédios e emplastros quando sentir que os pássaros já não mais dominam os céus. Cada ave pedirá uma pílula diferente, pois o que não for para o seu bico nem adianta enfiar goela abaixo. Mais do que sinal de liberdade, voar é um costume: fácil de se perder, mas um tanto complicado de se aprender.

LUÍS CARLOS: Ninguém se lembrará de Luís Carlos. Se lembrarem dele será de duas coisas, apenas: seu bigodinho superbem aparado num rosto rechonchudo e do seu rosto rechonchudo sem qualquer bigodinho ou bigode. Alguns preferirão ele com bigode: a esposa; outros, sem bigodinho: os filhos. Algumas coisas realmente são inconciliáveis.

RAFAEL: A namorada vai lhe pedir paciência. O padre vai lhe pedir paciência, ainda que de outro tipo. O goleiro do time vai lhe pedir paciência, levando gol atrás de gol. Vão lhe pedir um pouco de dinheiro também entre uma paciência e outra, a namorada, o padre e o goleiro. Seu advogado pedirá, além dos honorários, paciência, sendo que para outra Constituição só com muitas novas leis, dirá enfático, tentando convencê-lo de que o mundo só se muda pelas leis mas as leis são difíceis de se mudar. De dia, a noite lhe pedirá paciência, pois é preciso esperar o sol se cansar da gente antes de qualquer outra coisa. Um homem gentil vai lhe pedir paciência, pacienciosamente. O piloto, em plena queda livre lhe pedirá também paciência, o galo, o lobo, a matilha de lobos, o valentão, exemplos de paciência ao atropelá-lo, acordá-lo antes das seis, bicá-lo e mordê-lo, todos em nome da paciência, cada um a seu modo, em seu tempo e linguagem. Ao menos será tudo em nome da paciência, nunca da clemência, porque esta, sim, pode ser vil e cruel com a gente. O bêbado lhe pedirá um gole do trago, pedindo nada mais não.

[...]
Continuamos, com muito orgulho, neste MÊS das MÃES, rendendo homenagens a uma grande amiga: a MÃE NANA. Mesmo sendo freira, Mãe Nana é a que teve 140 filhos e determinou o destino de cada um deles logo que os ia parindo e batizando ao som do blues, do samba e do brega, suas paixões musicais de toda uma vida, bem comprida, aliás. Para não se atrapalhar, a Mãe Nana anotou o destino, pois que maternidade é destino, de cada um dos 140 filhos num caderno de contas que desde 2014 venho digitando. Hoje lhes apresentei mais 05 dos filhos de Nana.

* Qualquer semelhança com a ficção é a mera realidade.
(c. a. albani da silva, o inventor do vento)

P. S.: Pintura por Pino Daeni (1939-2010)








segunda-feira, 13 de maio de 2019

UM CHIMARRÃO ABOLICIONISTA



UM CHIMARRÃO ABOLICIONISTA

Ferveu a água, cevou o mate no porongo plantado em casa, meteu a bomba de ferro e saiu ruminando sobre a ABOLIÇÃO da ESCRAVIDÃO no jardim de sua biblioteca em Gravataí. Estou falando do vovô anarquista, Jamboré Jucundô, que vive no auge dos seus 88 anos e decidiu neste 13 de Maio conversar com alguns protagonistas da Abolição.

O vovô sabe que a Abolição foi o primeiro grande movimento popular a incendiar o Brasil politicamente. Passados apenas 131 anos da Abolição, ele também sabe que a escravidão durou cerca de 350 anos no país. O primeiro convidado da roda de chimarrão, JOAQUIM NABUCO (1849-1910) foi quem falou que, infelizmente, a escravidão sempre existiu, no Mundo Antigo e Medieval (maquiada de feudalismo), conforme pesquisou para o seu livro de 1883, O ABOLICIONISMO. Porém, a escravidão moderna foi quem trouxe milhões de escravos da África negra (Nigéria, Congo, Angola, Moçambique), a partir de 1500, para as Américas. Assim a escravidão negra virou o primeiro grande NEGÓCIO CAPITALISTA em escala global, movimentando fortunas de dinheiro.

Sem escravos negros não haveria a indústria do açúcar, do café, a grande extração de ouro e prata de rios e montanhas das Américas, a indústria do tabaco, do cacau, do algodão. Em nome desses lucros, os empresários e os piratas do mar e da terra, com incentivo dos reis colonizadores da França (no Canadá, Haiti, Guiana), da Inglaterra (no Canadá, EUA, Jamaica, Guiana), da Holanda (no Suriname, no Mar do Caribe), do Portugal (Brasil), na Espanha (do México à Argentina), esses piratas empreendedores chegaram até mesmo a usar a religião para justificar o trabalho escravo: os africanos eram pecadores por seguirem seus orixás e desconhecerem a Bíblia ou o Cristo: assim deveriam purgar com a escravidão para alcançarem a salvação da alma.

Todos paramos para ouvir o trágico canto do poeta baiano Antônio de CASTRO ALVES (1847-1871), VOZES D´ÁFRICA (1870) que, quase no final do poema, diz assim “Cristo! Embalde morreste sobre um monte… / Teu sangue não lavou de minha fronte / A mancha original”. Essa baboseira religiosa, muito oportunista e interesseira, multiplicada por toda a crueldade e a violência do regime escravocrata deixou para nós, além do profundo mal do RACISMO, como também, uma aguda desigualdade social entre todos os herdeiros da escravidão, nas favelas, mangues e periferias urbanas, de um lado, e os herdeiros dos colonizadores donos de escravos e de terras, por outro lado.

Veja que o direito de PROPRIEDADE era tão esdrúxulo e, ao mesmo tempo, tão poderoso que muito fazendeiro queria ser indenizado após a LEI ÁUREA. Por isso, e quem toma a palavra é o famoso ministro da Fazenda do primeiro presidente do Brasil, o RUY BARBOSA (1849-1923), que nos contou que mandou queimar, em 1890, todos os documentos nacionais da alfândega e das aduanas que anotavam as matrículas de compra e venda de escravos. É que a elite é muito agarrada aos seus privilégios e interesses, tanto que, na época, gente como o Visconde de Rio Branco (1871) e o Barão de Cotegipe (1885) fizeram a Lei do Ventre Livre e, depois, a Lei dos Sexagenários: aparentando ser leis bonitas e lindas, elas empurravam para frente a vida da escravidão no Brasil. Vovô sentiu no ar uma indireta para não comprarmos uma certa marca de erva-mate.

Então eu perguntei: mas por que a escravidão caiu no século XIX em vários países do mundo? Primeiro, porque a própria burguesia europeia vivia a industrialização desde 1800, com máquinas a vapor para fazer roupas e outras coisas. Assim era necessário trocar o trabalhador escravizado pelo trabalhador assalariado que gastava seu magro salário comprando as próprias roupas que fazia e outras mercadorias que produzia em larga escala numa economia capitalista de massas só possível com a invenção das fábricas. Segundo, porque a luta por liberdade de todos os escravos nas Américas, com seus QUILOMBOS, somou-se ao pensamento revolucionário da Revolução Francesa de 1789. Quando o partido jacobino teve oportunidade ele aboliu a escravidão em Paris e nas colônias francesas. Assim, numa mistura de luta pela independência contra a colonização europeia e de luta contra a escravidão, o Haiti, em 1790, numa imensa revolta negra, acabou com o regime de escravos. O que foi se espalhando por outros países americanos, passando pelo México em 1829, pelos EUA após uma guerra civil, em 1865, Cuba e Porto Rico em 1886 e, por último, o Brasil em 1888.

Quem nos contou isso foi o engenheiro ANDRÉ REBOUÇAS (1838-1898): homem negro que, com seu irmão Antônio, cortou ferrovias na Serra do Mar e foi morrer na ilha da Madeira porque era amigo do rei Dom Pedro II, mas defendia a reforma agrária. Nos disse uma grande verdade: o negro liberto da escravidão, mas continuando SEM TERRA onde morar e plantar, virará potencialmente um miserável na cidade grande…

A Princesa Isabel do Brasil (1846-1921) não veio. Ela acha muito vulgar compartilhar a baba dos outros tomando chimarrão gaudério e não gostaria de queimar a sua nobre língua, da família Bragança, com a água quente já que de uns tempos pra cá é candidata a santa! Isabel, filha de Pedro II, foi quem assinou a lei de 13/05 de 1888, mas ela não só não gostava de política, como teve vários escravos. Foi pouco popular no Rio de Janeiro, na serra de Petrópolis em seu tempo, pois era bastante bajuladora do arrogante marido, um francês chamado Conde D´Eu e metido a super-herói... A fama de REDENTORA foi invenção do jornalista JOSÉ do PATROCÍNIO (1854-1905): fundador da Sociedade Abolicionista Brasileira em 1880, ao lado do André e do Joaquim, José era um amigo da monarquia brasileira que foi derrubada em 15/11 de 1889 por um golpe militar (em parte, porque a escravidão tinha acabado um ano antes).

José também fundou a Academia Brasileira de Letras em 1897, ao lado do genial Machado de Assis (que não quis tomar chimarrão e ficou calado de pé, com a mão na barriga, nos observando atentamente com cara de triste). José escreveu três romances, um sobre a pena de morte: MOTA COQUEIRO, em 1877. José inventou até o dirigível Santa Cruz que, infelizmente, nunca voou. Veja que esses homens negros que saíram da maldição da senzala vinham de famílias mestiças cheias de dramas: José do Patrocínio era filho bastardo de um padre com a sua escrava. Curiosamente, o filho de José, o ZECA, ou Patrocínio Filho, foi um escritor de sucesso, embora fora dos cânones dos manuais de literatura brasileira: em 1927 vendeu 3 mil exemplares das crônicas A SINISTRA AVENTURA: REMINISCÊNCIAS DAS PRISÕES INGLESAS, quando, viajando pela Inglaterra a trabalho, no 07/09 de 1917, foi preso suspeito de espionagem nos tempos da ultranacionalista e ultracapitalista I Guerra Mundial (1914-1918)! Inclusive conta que se apaixonou pela bailarina e espiã Mata Hari!

Zeca Filho ganhou fama de hábil mentiroso, tanto que ninguém menos que o poeta Manuel Bandeira teria visto o morto tentar sambar dentro do seu caixão quando quem tocava no velório de Zeca, em 1929, era o sambista SINHÔ. Assim como, pouco antes disso, muito doente, um médico lhe recomendou como melhor remédio para meningite o leite materno. Ao ver a bela enfermeira que o trataria, pediu ao médico que a posologia do medicamento fosse feita com ele mamando…

Já o abolicionista LUIZ GAMA (1830-1882) teve uma vida de reviravoltas cinematográficas: filho de um fidalgo, ou seja, de um colonizador português rico e metido a nobre com uma escrava que fazia doces na Bahia. Sua mãe aderiu a rebelião dos escravos muçulmanos de Salvador, a REVOLTA dos MALÊS, em 1835, e ele foi vendido pelo pai para pagar as dívidas de jogo. Só com 18 anos, e trabalhando na biblioteca de um delegado, conseguiu comprovar que havia nascido livre. Formado como advogado popular (um rábula sem diploma) foi para São Paulo advogar pela liberdade dos negros, escrevendo poemas satíricos e juntando fundos para a abolição. Dizem que assim libertou 500 escravos e colocou numa escolinha, patrocinada pela maçonaria, outras 200 crianças. Em 1859 publicou o livro TROVAS BURLESCAS de GETULINO onde anotou no poema QUEM SOU EU? os versos: Tenho mui poucos amigos / Porém bons, que são antigos / Fujo sempre à hipocrisia / À sandice, à fidalguia / Das manadas de Barões? / … / Faço versos / não sou vate / Digo muito disparate / Mas só rendo obediência / À virtude / à inteligência: / Eis aqui o Getulino…

Falando em livros, recebemos, já servindo o mate doce, com açúcar e água quente, ao anoitecer, com o friozinho chuvoso de outono, a professora MARIA FIRMINA dos REIS (1825-1917): professora do ensino básico por quase 40 anos. A MARANHENSE, como assinou seus poemas (Cantos à beira-mar, 1871), contos (A escrava, 1887), Úrsula (1859), este o primeiro romance escrito por mulher no Brasil e trazendo nas suas páginas uma personagem como Mãe Suzana que relembrou sua vida de escrava no livro mas não se dispôs a ajudar o antigo patrão, Fernando.

Ainda precisamos abolir muitas coisas ruins que a escravidão nos deixou de herança.
(c. a. albani da silva, o inventor do vento)

domingo, 12 de maio de 2019

OS 140 FILHOS DE MÃE NANA – parte 3



OS 140 FILHOS DE MÃE NANA – parte 3
MEDISON: Este terá mais dias alegres do que tristes. Somente nos quatro dias de Carnaval do ano de 1986 a coisa vai ficar ruim. Adiante, terá uma vida sem sobressaltos, longa e saudável. Mas sem os lirismos das boas surpresas; sem as poesias de um milagre; sem os dramas que fazem montanha-russa do compasso do nosso coração e outras bárbaras artes que nos marcam a ferro e fogo. Ele quem escolheu morrer de velho, dizendo que morrer de velho é bem mais complicado do que se matar novinho. Os dias do futuro lhe serão, deste jeito: repetições de gestos e sentimentos parecendo que nunca aconteceram antes, mas que há tempos já aconteceram, sim, como naquela olhada para trás que o fará lembrar das laranjeiras lá de casa onde brincava de esconde e esconde com o gato e ainda enchia a pança assim de laranja do céu e de umbigo e o sabor do suco, uma laranjada sem açúcar, lhe terá valido viver uma grande mudança.

FABIANA: Na Roma antiga será Fabiana quem levantará a voz e pedirá a palavra em nome das mulheres contra a escravidão do corpo. Mal sabem os historiadores, mas as arenas eram espetáculos ao ar livre de sexo explícito, escreverá. Sem moralismos, Fabi proclamará também aos quatro ventos e na jangada que leva aos 7 mares que viver sem roupas é o mesmo que usar um véu preto do dedão do pé à ponta do nariz gorduroso. O pornógrafo de Nova Iorque e o aiatolá-bispo-rabino do Irã-México-Israel lhe queimarão na mesma fogueira não sem, antes, a cortejarem e lhe oferecerem joias com ouros e modas íntimas importadas para uma noite de núpcias, tentando fazer de Fabi boa transa e não boa mártir. Ela conhecerá o World Trade Center e Meca, por dentro, mas não aceitará a patifaria desses caudilhos dos sussurros e dos gemidos de fé e prazer.

LEANDRO SIMÃO: Se comprar sapato com cadarço e meia já terá feito muito.

RAIMUNDO: O mutante Raimundo. Entreguei-o bebê de colo como voluntário, pois quem cala consente, em secretas operações militares. Acelerarão seus genes em laboratório e ele crescerá já sem os sisos, com quatro dedos em cada pé, mas com seis dedos em cada mão. Seus pulos terão a propulsão dos gatos. Ele terá um gato de estimação: Thompson. O terceiro olho que alguns monges e sacerdotes hindus já haviam desenvolvido nos últimos 3 milênios ficará permanentemente aberto na testa de Mundinho. Entretanto, não será imortal nem muito inteligente. Mas será muito musculoso e, talvez por isso - os cientistas ainda procuram explicações razoáveis - um tarado impertinente, com suas mãos-bobas de seis dedos cada. Resistirá bem ao álcool, isto é, dizem os biólogos integrantes da equipe que coordenará o projeto, em decorrência do rabo de gambá que lhe despontará na bunda depois dos 06 anos de idade. Perderá o apetite sexual conforme essa cauda crescer, o que vai levar muito tempo. Mesmo assim se negará a fazer a guerra. Por isso, a experiência será considerada um fracasso, aos olhos dos cientistas e militares, assim como, das empresas multinacionais patrocinadoras que me pagarão os direitos de propriedade sobre Mundinho rigorosamente em dia.

MARIA: Predestinada caminhante sem nem nunca sequer ter um burrico ou uma bicicleta: andará sempre de a pé. Vais caminhar a vida inteira sabendo a cada passo adiante, e mesmo a cada passo para trás e pros lados também, que melhor que qualquer chegada o que importa mesmo é o percurso de cada um e de todos nós. Nem sempre é possível desatar a todos os nós. Comprará calçados que os caminhos são muitos e as perdições também: sandálias e chinelas. Mas no verão, na Praia de Baunilha, não tem jeito: os pés nus, calejados de tão sujos de terra destinante à caminhada. A terra é o alimento dos pés. O cansaço será sua desculpa para tirar os pés do chão mas, por pouco tempo, pois cedo, logo no outro dia de manhã, recomeçará as veredas de areia, barro barro, grama & grama, asfalto frio ou quente, cerâmica quebrada ou inteira. Andar assim da pampa aos morros, pelas cidades, por fazendas. Quase sempre, aliás, anda sem saber pra onde vai, mas anda só pra esvaziar a cabeça. A cabeça quando vai cheia pesa e faz doer ainda muito mais os pés.

[...]
Continuamos, com muito orgulho, neste MÊS das MÃES, rendendo homenagens a uma grande amiga: a MÃE NANA. Mesmo sendo freira, Mãe Nana é a que teve 140 filhos e determinou o destino de cada um deles logo que os ia parindo e batizando ao som do blues, do samba e do brega, suas paixões musicais de toda uma vida, bem comprida, aliás. Para não se atrapalhar, a Mãe Nana anotou o destino, pois que maternidade é destino, de cada um dos 140 filhos num caderno de contas que desde 2014 venho digitando. Hoje lhes apresentei mais 05 dos filhos de Nana.

* Qualquer semelhança com a ficção é a mera realidade.
(c. a. albani da silva, o inventor do vento)

P. S.: Pintura por Amanda Greavette, Agarrada no Berço, 2012.

sábado, 11 de maio de 2019

OS 140 FILHOS DE MÃE NANA – parte 2



OS 140 FILHOS DE MÃE NANA – parte 2

DORA: Vai ser criada por um avô, guerrilheiro tupamaro e artista plástico. Flanará pelas águas do Rio da Prata espalhando cheiros bons para a Montevidéu inteira. Seu avô será perseguido por livre pensar e pintar paredes em regimes ditatoriais no Uruguai, na Argentina, no Brasil e ao sul de Moçambique, na Praia de Baunilha. Os olhos glaciais de Dora não serão mais belos do que seu quente coração inquieto por causa da criatividade. Entretanto, não passará de balconista em shopping center antes de ser telefonista de call center, por fim, atriz em sonhos quando as noites mal dormidas vierem. Viajará de ônibus pelas coxilhas que se alargam no Sul do planeta, desde Santa Maria da Boca do Monte até o porto de Buenos Aires pensando em príncipes encantados e desenhando castelos no ar.

OLÍMPIO: Esportista, Olímpio terá saúde de ferro, aço e carnaúba. Nem conhecerá resfriados nem febres nem dores de barriga. Halteres nos pulsos e nos tornozelos como adereços, lutando à grega e lutando boxe, vencendo o imortal Aquiles e Maomé Ali. No basquete se espichará como se de borracha fosse feito, mas não será, será feito de ferro fundido, aço flexível e carnaúba da areia da caatinga. O engraçado é que numa maratona, já regulando na casa dos 100 anos, um raio vai lhe cair na cabeça e depois disso vai expor as pernas torneadas e tostadas da luz elétrica numa revista homoafetiva. Os leitores lhe perguntarão o segredo da beleza e da longevidade e ele achará melhor explicar com outros explicamentos do que a genética da Mãe Nana e os raios bronzeadores: muita salada, muita fruta, carne branca, massagem peniana, gastar meia hora por dia pensando como seria minha vida se não fosse isso e buscando entender que se um dia a gente perde, noutro a gente ganha em qualquer jogo os extremos se anulam e ficamos com a coluna do meio na loteria.

SÉRGIO: Sempre que a mulher de Sérgio sair pra fazer compras e demorar para voltar ele chorará copiosamente com medo de perdê-la. Alguns dias, o povo da Toca da Jiboia vai agradecer por essa choradeira, em meio a longas estiagens nos campos que serão então inundados pelo seu pranto. Mas, por vezes, muitos quererão ver a caveira dele, com ruas e calçadas alagadas e plantações destruídas nos sertões. Indiferente ao seu poder, Sérgio esperará da sala até a cozinha, impacientemente indo e vindo, da cozinha até a sala, com frio, com Sol, com estrelas & Lua, chuva ou seca, por Aurora das Pernas de Fora. Quando ela botar os pés no capacho da casa, onde se lê “Sérgio & Aurora”, será recebida por abraços infinitos e beijinhos nas mãos, ele de joelhos; ela se justificando: “durou 43 dias a greve dos ônibus no centro comercial e eu não queria sujar os pés”.

LISANDRA: Dona Lisandra procurará ser impetuosa. Percorrerá o Brasil demonstrando a si mesma e esperando ouvir de terceiros, demonstrando aos outros, portanto, que ela tem ímpeto! No Sul, no lombo dos cavalos, primeiro os cavalos, depois os cavaleiros, dirão que essa mulher tem fibra. Fibra não sendo ímpeto, no seu dicionário, ensinado por Mãe Nana com lousa negra e giz branco desde os seis aninhos, ela partirá para o Norte. Quase oriental, vai ouvir de um amazônico e meio que seus óculos lentes grossas lhe dão um ar agressivo. E esta será a senha para deixar os banhos de chuva e conversas com os mosquitos até São Paulo, capital dos rifles e da solidão. Nesta cidade não se pode ser impetuoso, devendo-se ser gelatinoso para se sobreviver: concluirá depois de poucos anos. No Nordeste, dividida entre o interior, as capitais e as praias desertas, uma fortaleza baiana, um peixe de rio e dois cocos de coqueiro não repararão em sua chegada e partida. Isso que ela impetuosamente tentou lhes chamar a atenção. É que vivendo em seu tempo, espaço, ritmo e tamanho, eles não precisarão do ímpeto dela, nem de ninguém. Até que bem chegado o dia do Mato Grosso, lá onde os melhores jacarés do pântano lhe chamarão de cantinho e reconhecerão, “tu és, como na TV a cabo, como um vestido vermelho, um desfile de carnaval, coisa bem impetuosa, mulher”!

EDSON: Não me venham com ofensas ou impropérios se fiz e farei de meus filhos trabalhadores, podendo tê-los feito senhores de engenho, executivos, acionistas de qualquer empresa dona do mundo mais do que eu sou dona das minhas crias. Trabalhar é um alento pra quem não nasceu com o cu pra lua, o que é mais do que o dobro do triplo da gente rica e mesquinha que anda por aí. A lua que alumia e protege nossa família é coisa instável de revoluções e ciclos que enchem as marés e os sacos, faz de bobo os amantes e entretém o dragão, morrendo nas mãos do São Jorge das Minas de Capadócia a cada 21 dias. Sendo assim, pequeno Edson, trate de subir nessa carroça tão antiga quanto os cavalos selvagens que o conduzirão e ajude o seu Manuel, outro pobre coitado, vendedor de batatas e melancias. Lave o chão do armazém do tio Neno e cale essa boca, pensando bem antes de reclamar de qualquer coisa. Encha de óleo e azeite de oliva as bombas hidráulicas pra metalúrgica que lhe empregou quando bem poderia ter empregado outro. Na padaria do Castilhos também venderão madeira e ferragens, pois quem não sacode a poeira do dia logo virará pó também. Todo suado, tome um banho e vá deitar, que o sono é o melhor amigo, único, dirá o pessimista, para quem traz a mente vazia e os músculos doídos de tanto caminhar.

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Continuamos, com muito orgulho, neste MÊS das MÃES, rendendo homenagens a uma grande amiga: a MÃE NANA. Mesmo sendo freira, Mãe Nana é a que teve 140 filhos e determinou o destino de cada um deles logo que os ia parindo e batizando ao som do blues, do samba e do brega, suas paixões musicais de toda uma vida, bem comprida, aliás. Para não se atrapalhar, a Mãe Nana anotou o destino, pois que maternidade é destino, de cada um dos 140 filhos num caderno de contas que desde 2014 venho digitando. Hoje lhes apresentei mais 05 dos filhos de Nana.

P. S.: Qualquer semelhança com a ficção é a mera realidade.

(c. a. albani da silva, o inventor do vento)